- Um inquérito nacional na Austrália, com mais de 2.300 adultos e 1.100 jovens (13 a 17 anos), mostra que 40 % dos rapazes nessa faixa etária concordam que as mulheres mentem sobre violência doméstica e sexual.
- Entre os adolescentes, 28 % dos rapazes e 21 % das raparigas concordam que a violência pode ser usada para resistir ao feminismo; 25 % a 30 % dos rapazes aceitam várias formas de extremismo violento.
- A misoginia manifesta-se de várias formas de extremismo, desde coerção no âmbito privado até restrições políticas sobre direitos reprodutivos, ligando-se a movimentos de direita, fundamentalismo religioso e comunidades online de incels.
- A investigação indica que a perceção de ameaça ao estatuto masculino e a sensação de pertença podem impulsionar a radicalização, com as narrativas online a amplificá-la.
- Como prevenção, destacam o programa educativo Resiliência, Direitos e Relações Respeitadoras, desenvolvido pela Faculdade de Educação da Universidade de Melbourne, que promove competências sociais, normas de género positivas e redução da violência baseada no género.
No Dia Internacional da Mulher, uma investigação australiana analisa como atitudes misóginas se relacionam com o apoio a extremismos. O estudo, com mais de 2300 adultos e 1100 jovens entre 13 e 17 anos, sugere que a misoginia pode ser um motor do extremismo, não apenas um fenómeno social.
Os investigadores destacam que, apesar de a maioria associar extremismo a fatores como raça ou religião, as políticas de género também contam. A pesquisa procura perceber como as atitudes em relação ao género influenciam a radicalização e quais estratégias de prevenção são mais eficazes.
O que revelou o inquérito
Entre os adultos, mais de 17% concordam que o feminismo deve ser combatido com violência, posição que se posiciona entre as mais elevadas formas de apoio ao extremismo violento. Entre os jovens, os resultados são ainda mais preocupantes.
Entre 25% e 30% dos rapazes de 13 a 17 anos manifestaram apoio a várias formas de extremismo violento. Mais de um terço (36%) mostraram atitudes misóginas. O apoio à violência para resistir ao feminismo foi de 28% entre rapazes e 21% entre raparigas.
Um dado particularmente alarmante é que cerca de 40% dos rapazes desta faixa etária concordam que as mulheres mentem sobre violência doméstica e sexual. As taxas mais altas de apoio à violência para conter o feminismo concentram-se entre rapazes adolescentes.
Contexto global e fatores de risco
A investigação analisa ainda como a perceção de ameaça ao estatuto masculino e a falta de pertença potenciam o fenómeno. Narrativas online promovem a ideia de que a igualdade de género é uma ameaça, alimentando uma lógica de “nós contra eles”.
As comunidades online validam queixas masculinas e criam um grupo externo (as mulheres) que é responsabilizado, ao mesmo tempo que se forma um grupo interno de misoginia, com influência de figuras digitais. Esta identidade pode abrir portas à radicalização violenta.
Perspectivas de prevenção
A equipa de Melbourne trabalha em recursos educativos, designados Resiliência, Direitos e Relações Respeitadoras, que promovem competências sociais, empatia e normas de género positivas. Os currículos já mostraram impactos positivos na saúde mental e na redução de comportamentos de violência baseada no género.
Os investigadores colocam a pergunta sobre o que ainda se deve fazer nas escolas e como competir com influências online. O objetivo é reduzir o potencial de radicalização sem comprometer direitos e liberdades.
Conclusões provisórias e caminhos futuros
As primeiras conclusões apontam para a necessidade de compreender as variadas formas de misoginia, que vão desde o controlo no espaço privado até políticas públicas restrictivas. A relação entre misoginia e extremismo violento requer mais dados para confirmar tendências temporais.
O estudo reforça que, mesmo em contextos de celebração de direitos, é possível observar respostas de rejeição e reacção. O caminho para a prevenção depende de respostas institucionais, educação e inclusão social.
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