- A conferência Factness, em Lisboa, reuniu especialistas para debater desinformação, regulação de suplementos alimentares e comunicação de saúde, nutrição e fitness.
- Paula Macedo (Nova Medical School) e Helena Pereira (Público) destacaram os impactos das redes sociais na validação do conhecimento e a necessidade de manter os factos mais fortes que o ruído.
- O orador principal, David Marçal, sublinhou problemas de representação científica no espaço público e alertou para a rapidez e alcance dos algoritmos nas redes sociais.
- A segunda mesa-redonda discutiu regulação e fiscalização, com destaque para a DGAV, ASAE, Ordem dos Nutricionistas e Ordem dos Médicos, sobre publicidade de suplementos e atuação perante quem pratica atos de nutricionista sem detenção de habilitação.
- Dados de Portugal apontam crescimento do mercado de suplementos, com milhares de notificações desde 2016; pretende-se, até ao final do ano, lançar uma plataforma eletrónica da DGAV para gerir notificações e aumentar transparência.
Na Sala dos Actos da Nova Medical School, em Lisboa, realizou-se a conferência Factness: O lugar dos factos na comunicação de saúde, nutrição e fitness. O evento reuniu especialistas para debater desinformação, ciência e regulação de suplementos alimentares. A iniciativa decorreu no âmbito de um projeto de jornalismo de investigação apoiado pela Journalism Science Alliance.
Durante a sessão de abertura, Paula Macedo, subdirectora para a Investigação da NMS, e Helena Pereira, editora executiva do PÚBLICO, sublinharam os desafios impostos pelas redes sociais. Reforçou-se que é cada vez mais complexo distinguir evidência de opinião na era digital, sobretudo em saúde e nutrição.
David Marçal, orador principal, alertou para a rapidez com que a desinformação se dissemina online. Ressaltou problemas de representação da ciência e a influência de algoritmos na circulação de conteúdos, destacando a importância de literacia mediática e de explicar o processo científico.
Dieta algorítmica saudável
Numa primeira mesa-redonda, especialistas discutiram por que a desinformação persiste nas áreas de nutrição e fitness e quais são as consequências. Participaram Cláudia Marques, Gabriela Ribeiro, Francisca Azevedo, José Moreno, João Pinhal e João Mestre, com moderação de João Mestre.
Francisca Azevedo e José Moreno apontaram que, em Portugal, a confiança na medicina e na ciência continua relativamente alta, ainda que a desinformação tenha impacto. Discutiu-se a influência de influenciadores e a tendência para soluções simples, reforçando a necessidade de uma comunicação mais rigorosa.
Regulação e fiscalização
A segunda mesa tratou de regulação, com Elsa Madureira, Luís Cunha Miranda, Paula Garcia e Susana Santos, moderados por Teresa Firmino. Envolveu-se a revisão de códigos deontológicos e a aplicação de regras na publicidade de suplementos.
Foi destacada a importância de que a publicidade identifique claramente conteúdos promocionais e que a nutrição se baseie em ciência. A DGAV, em coordenação com Infarmed e ASAE, reforça atuação sobre o mercado de suplementos, com milhares de notificações desde 2016.
Susana Santos, da Deco Proteste, alertou para a perceção pública e revelou inconformidades detectadas em análises de suplementos para queda de cabelo. Defendeu maior clareza regulatória e um sistema nacional de notificação de efeitos adversos, a nível nacional e europeu.
Luís Cunha Miranda, da Ordem dos Médicos, salientou que a pseudociência não tem lugar numa sociedade civilizada e que é preciso ser mais célere na fiscalização e responsabilização. Referiu ainda que o setor dos suplementos envolve um mercado milionário com pressão regulatória.
Transparência e próximos passos
Paula Garcia enfatizou que os suplementos não substituem a alimentação e devem seguir prescrições de nutricionistas. A DGAV aponta para uma plataforma eletrónica para gestionar notificações, com intenção de aumentar a transparência até ao fim do ano.
Susana Santos chamou ainda a atenção para o papel da Deco Proteste na fiscalização do mercado e para a necessidade de regular alegações de saúde feitas em publicidade, incluindo redes sociais. João Pinhal destacou as dificuldades de acesso a fontes oficiais como obstáculo ao escrutínio público.
A conferência encerrou com Conceição Calhau a defender que profissionais devem falar a mesma linguagem para reduzir a desinformação, numa altura em que a credibilidade compete com a popularidade nas plataformas digitais.
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