- Em Lisboa e áreas próximas, as estatísticas indicam que o número de partos de mães estrangeiras tem vindo a crescer desde 2016, aproximando-se de metade do total em algumas regiões.
- Em muitos casos, a comunicação entre grávida e equipa médica recorre ao Google Tradutor, uma ferramenta que nem sempre assegura compreensão ou segurança clínica.
- A questão central é quem é responsável quando surge um erro: a equipa médica, o hospital, o sistema de saúde ou a empresa tecnológica.
- Existem alternativas mais seguras que a tradução automática, como BabelDr, Care2Translate, mediadores culturais e técnicas de comunicação (teach-back); a DGS reconhece necessidade de folhetos multilíngues, mas a comunicação oral continua essencial.
- Portugal precisa de uma política clara sobre uso de tradução automática na saúde, com diretrizes, recolha de línguas faladas pelos utentes e mecanismos de responsabilização para assegurar que uma grávida entenda e seja compreendida pelo médico.
O Google Tradutor tornou-se uma ferramenta de apoio nas salas de parto para mulheres que não dominam a língua local. Em muitos casos, é o recurso mais acessível disponível. A reflexão surge sobre quem assume a responsabilidade quando ocorre um erro de tradução.
Em Lisboa, Setúbal e no Algarve, dados do INE indicam que os partos de mães estrangeiras têm aumentado significativamente, aproximando-se de metade do total nas maiores áreas metropolitanas. A presença de intérpretes ainda é irregular, levando equipas a recorrer ao tradutor automático como solução prática.
Para além da tradução, a questão envolve também o diagnóstico. Diferenças sutis no significado de uma frase podem alterar avaliações clínicas, com impacto direto no tratamento. Em contextos clínicos, a falta de compreensão mútua pode comprometer a segurança da mãe e do bebé.
Desafios e responsabilidade
A utilização do tradutor automático levanta questões sobre quem responde por falhas. Equipas médicas, hospital, sistema de saúde ou a empresa de tecnologia; cada entidade pode ter papéis diferentes na gestão de riscos. A ausência de diretrizes oficiais agrava a situação.
A DGS reconheceu a necessidade de atualizar materiais informativos multilíngues. Contudo, materiais escritos não substituem a comunicação oral necessária durante o parto. A ausência de protocolos cria vulnerabilidade a erros de diagnóstico e intervenção.
Custos e opções
No Reino Unido, as barreiras linguísticas gerem custos significativos para o sistema de saúde, com perda de tempo por parte dos profissionais. Em Portugal, não há recolha de dados sobre o custo financeiro destas falhas, o que dificulta a avaliação de impactos.
Ferramentas específicas para contextos clínicos existem e incluem soluções de tradução adaptadas, bem como métodos de verificação da compreensão do paciente. Mediadores culturais também podem reduzir falhas de comunicação, quando disponíveis.
Caminhos a seguir
Portugal precisa de uma política clara sobre o uso de tradução automática no serviço público de saúde. Diretrizes para profissionais, recolha de informações sobre as línguas faladas pelos utentes e estruturas de responsabilização são prioritárias. O objetivo é garantir que uma grávida percebe o médico e o médico entende a dor.
A implementação de protocolos deve envolver linguistas, profissionais de saúde e comunidades migrantes. A aposta na formação e na avaliação contínua aumenta a segurança clínica e evita dependência exclusiva de ferramentas automatizadas.
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