- Um estudo do Centro Helmholtz de Investigação Ambiental (UFZ) indica que dois graus Celsius de aquecimento global podem provocar impactos climáticos extremos superiores aos previstos para cenários de três ou quatro graus, em vários setores.
- Os investigadores analisaram milhares de simulações CMIP6 e identificaram três domínios de risco: precipitação extrema em áreas densamente povoadas, secas em regiões agrícolas-chave e condições favoráveis a incêndios florestais.
- Em várias análises, alguns cenários a dois graus mostram impactos muito mais severos do que a média dos modelos para quatro graus, destacando que o pior pode ocorrer mesmo com aquecimento moderado.
- Na Península Ibérica, alguns modelos apontam aumento de secas acima da média global a dois graus e intensificação de eventos de chuva intensa em zonas densamente povoadas, potencialmente mais graves do que com três ou quatro graus.
- Os autores ressaltam a necessidade de comunicar melhor os riscos extremos, não apenas as médias, para preparar políticas de mitigação e adaptação sem confundir com cenários mais severos.
Um estudo internacional liderado pelo Centro Helmholtz de Investigação Ambiental (UFZ) sustenta que um aquecimento de apenas 2°C pode gerar impactos climáticos extremos superiores aos previstos para cenários de 3°C ou 4°C. As conclusões destacam riscos de secas, cheias, precipitação intensa e incêndios em vários setores. O autor principal, Emanuele Bevacqua, alerta para a confiança excessiva nas médias das projecções.
A equipa testou milhares de simulações CMIP6 para avaliar cenários até 2050 e além. O objetivo foi identificar quais previsões dependem menos de o que acontece, por exemplo, na agricultura, florestas e áreas urbanas densas, onde os efeitos podem ser mais agudos do que o esperado. Os resultados aparecem na revista Nature.
Risco global e regional
Os investigadores analisaram três domínios de risco: precipitação extrema em áreas populosas, secas em zonas agrícolas chave e condições favoráveis a incêndios florestais. Em todos, alguns modelos indicam impactos muito mais intensos a 2°C do que a média de cenários a 3°C ou 4°C.
A leitura local para a Península Ibérica aponta que, mesmo com 2°C, há possibilidade de fenómenos extremos de chuva e seca superiores aos cenários com aquecimento maior. Em zonas densamente povoadas, a precipitação extrema pode intensificar-se mais do que o esperado em mundos a 3°C ou 4°C.
Implicações e comunicação de risco
Os autores sublinham que comunicar apenas as médias subestima a amplitude real de eventos plausíveis. Parte da variação entre simulações mostra que cenários extremos podem ocorrer sob 2°C, especialmente em setores sensíveis à água e aos incêndios.
O estudo ressalva que não se trata de minimizar a importância de reduzir o aquecimento, mas de reconhecer que o pior cenário possível pode emergir antes do limite de 2°C. A pesquisa sugere planeamento que inclua também cenários de baixa probabilidade, porém de alto impacto.
Caminhos para adaptação
A investigação reforça a necessidade de estratégias de adaptação mais robustas e de avaliação de riscos amplos. Ainda que o objetivo de manter o aquecimento próximo de 2°C seja crucial, há que preparar sistemas agrícolas, urbanos e ecossistemas para eventos extremos.
Especialistas associam as descobertas à urgência de políticas climáticas mais abrangentes, com foco não apenas no cenário provável, mas também nos impactos menos prováveis, porém relevantes, que podem ocorrer.
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