Em plena escalada de confrontos no Médio Oriente, imagens de videojogos têm sido partilhadas como se mostrassem combates reais. Um vídeo publicado a 1 de março na rede social X alegava confrontos entre um navio norte-americano e uma aeronave iraniana, mas foi considerado falso pela AFP, que confirmou ser imagem de um videojogo.
Desde o início da ofensiva entre EUA, Israel e Irão, no fim de fevereiro, a desinformação intensificou-se nas redes sociais. No meio do bojo de conteúdos engañosos, os videojogos aparecem como veículo de propaganda e manipulação visual, segundo verificações de várias organizações.
A prática já vinha a ganhar notoriedade antes de operações militares específicas. Em 2023, BBC e Euronews já tinham reportado o uso de cenas de Arma 3 e Call of Duty para desinformação; em 2023 houve casos durante o conflito entre Israel e Hamas, segundo Axios.
A Bohemia Interactive, criadora de Arma 3, reconheceu que imagens do jogo já foram usadas para fins de desinformação e afirmou que coopera com meios de verificação para limitar esse uso. O estúdio também afirmou não apoiar a propaganda baseada em conteúdos simulados.
Especialistas dizem que o realismo crescente dos jogos facilita a criação de imagens convincentes sem presença de pessoas. Um vídeo de 60 euros pode gerar conteúdo fidedigno para fins propagandísticos, explica Roger Tavares, do IPB, por escrito ao PÚBLICO.
A prática inclui técnicas como Machinima, que usa jogos para criar filmes não interativos. Embora usada artisticamente, pode produzir conteúdos enganosos ao alterar resolução, movimento de câmara e som, tornando-se difícil distinguir da realidade.
Videojogos como ferramenta de propaganda
Casos recentes envolvem a Casa Branca, que publicou vídeos combinando imagens de Call of Duty com ataques reais, apenas para removê-los mais tarde. Outros conteúdos com GTA e Wii Sports também circularam, sem autorização de criadores.
Apoiada pela nostalgia, a divulgação de conteúdos de Pokémon e Wii Sports tem sido usada para transferir impulsos emocionais para causas políticas. A Pokémon Company afirmou não ter autorizado essas utilizações, destacando que não apoia agendas políticas.
Para além disso, alguns jogos com temática militar podem favorecer narrativas nacionalistas e a construção de uma visão de mundo de bem contra o mal, alerta o especialista. O Historial de Americas Army é citado como exemplo de envolvimento institucional com objetivos de recrutamento.
Além de conteúdos não oficiais, houve também produções nacionais, como animações ao estilo Lego com figuras de Donald Trump e de Netanyahu veiculadas pela televisão iraniana. A YouTube já pôs fim a uma conta que difundia vídeos gerados por IA nesse formato.
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