O Building the Future 2025, realizado no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, revelou que a IA já está presente nas empresas, com utilizadores internos a recorrer a técnicas não geridas pela equipa de TI. O evento mostrou um tom de equilíbrio entre otimismo e cautela, com foco no diagnóstico atual da adoção da IA.
A sessão destacou que, a curto prazo, a IA pode reduzir custos, mas a longo prazo pode afetar o processo criativo e o desempenho financeiro. A reflexão foi partilhada por várias personalidades presentes, incluindo artistas, executivos e especialistas em cibersegurança.
Bernardo Correia, secretário de Estado da Digitalização, apresentou a visão de Portugal no cenário internacional. O país terá produtividade de 75% da média europeia, um dado considerado crítico. A IA surge como motor de convergência económica com a Europa, com contributo estimado de até 2,7 pontos percentuais no PIB.
Perspectivas nacionais
Correia lembrou que Portugal conta com mais de 5.000 startups, com 28.000 trabalhadores e salários acima da média nacional. A OCDE classifica o país no top 3 mundial no Índice de Governo Digital. Foram apresentados planos para uma carteira digital para empresas e para avançar com a Agenda Nacional de IA, centrada em infra-estrutura, inovação, talento e ética.
A Agenda Nacional de IA inclui a candidatura ibérica à Gigafábrica Europeia de IA e visa digitalizar 100% dos serviços públicos até 2030, inspirando-se na Estónia. O governante sublinhou que o Governo não atua sozinho, defendendo uma transformação da IA em vantagem competitiva para Portugal.
Uso e riscos da IA
Foi mostrado que a adoção de IA já acontece amplamente dentro das organizações, mesmo sem gestão centralizada. Em demonstração ao vivo realizada por Joel Carneiro, AI Architect do Armis Group, muitos presentes tinham usado IA na semana anterior, mas poucos sabiam explicar dados de entrada, saídas ou controles aplicados.
O conceito de shadow AI ficou claro: ferramentas pessoais acabam por operar fora da visibilidade de TI e de conformidade. Os especialistas alertaram para que a proibição não resolva o problema, já que os canais oficiais são lentos e o uso privado persiste, gerando vulnerabilidades.
David Grave, diretor de cibersegurança da Claranet, acrescentou que cerca de 80% das empresas já utilizam IA, embora grande parte esteja ainda em fases de prova de conceito. Em contrapartida, cibercriminosos já exploram IA em produção, sem garantias de controlo, orçamentos ou regras.
Governança e pessoas
O tema da governança ficou protagonista: a tecnologia avança rapidamente, enquanto os processos formais evoluem mais lentamente. A necessidade de rastreabilidade, classificar riscos e manter supervisão humana em pontos críticos foi defendida por Carneiro e por Nuno Marques, que falaram em “aceleração com confiança”.
Bruce Dickinson, na intervenção sobre o impacto humano, destacou que a IA não substitui o toque humano nem a criatividade. Na visão dele, o verdadeiro risco é o ritmo, já que a evolução tecnológica é exponencial e o humano reage de forma mais lenta.
O efeito humano na IA
Daniela Ruah referiu impactos na indústria criativa, onde a IA já substitui trabalhos de referência em cenas de ação e na geração de storyboards. O alerta foi de que o uso generalizado de IA pode comprometer o desenvolvimento de talentos e o valor criativo a longo prazo, com consequências para o fluxo de trabalho e os custos.
O foco do debate deslocou-se para quem controla a IA. Carlos Grave mostrou uma demonstração de pentest com IA em que um agente identificou vulnerabilidades, gerou relatório e criou um dashboard com recomendações. A mensagem foi de que a IA pode falhar, gerar falsos positivos e não saber quando parar, exigindo supervisão humana constante.
Construir o mundo com IA
Cláudia Mendes Silva, country director da Women in Tech Portugal, encerrou com uma reflexão sobre quem molda a IA. As grandes potências investem fortemente em hardware e computação, enquanto a Europa lidera na ética regulatória, mas fica atrás na capacidade de produção. O seu argumento central é que quem define as regras da IA molda o futuro.
Para as organizações, destacaram-se três forças determinantes: estratégia integrada de dados, sustentabilidade por custos energéticos e inclusão para reduzir riscos. O endurecimento de competências e a diversidade de equipas aparecem como fatores críticos para evitar pontos cegos na IA.
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