Durante as presidenciais de janeiro, conteúdos de desinformação nas redes sociais portuguesas acumularam mais de 12,8 milhões de visualizações. O estudo, da ERC em parceria com o LabCom, aponta que a descredibilização dos media foi o tipo mais frequente.
Mesmo com acesso sem precedentes à informação, muitos portugueses sentem o oposto: pouca confiança no que leem. Jornalistas são vistos como ativistas, políticos como populistas e as redes como manipuladoras.
Os algoritmos atuam como curadores, promovendo conteúdo polarizador e choque emocional. Não há, necessariamente, uma conspiração, mas a lógica de envolvimento favorece a desinformação.
Essa dinâmica cria realidades digitais diversas, onde cada utilizador recebe uma versão filtrada do mundo. Plataformas que prometiam ligação global fragmentam a experiência coletiva da informação.
Teorias conspirativas, radicalização e ecossistemas paralelos ganham expressão por via de conteúdos que geram reatividade emocional. O fenómeno não é novo, mas é amplificado pela escala das redes.
No caso de Portugal, o Digital News Report 2025 coloca o país no 7.º lugar mundial em confiança nos media. Contudo, a confiança caiu 10 pontos percentuais em dez anos, com 70% dos portugueses preocupados com desinformação online.
A regulação surge como resposta. A União Europeia avança, mas regular plataformas globais, opacas e movidas por lucros é um desafio complexo, mantendo o equilíbrio entre bem-estar público e negócios.
A literacia digital é parte da solução, mas não suficiente. Pedir aos indivíduos que compensem toda a assimetria de incentivos tecnológicos não resolve o problema estrutural.
O desalinhamento entre interesse público e incentivos económicos condiciona o espaço digital. Democracias precisam de desacordo, sim, mas exigem também um chão comum para o debate público.
O maior risco pode não ser a mentira, mas a saturação que impede distinguir a verdade. A indiferença perante a informação verídica afasta o cidadão da participação cívica.
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