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Curar a criança que partiu para se tornar mãe e pai

No Dia da Criança, pais que viveram traumas de infância lutam para não repetir padrões e construir uma parentalidade consciente

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  • No Dia da Criança, três casos sob nomes fictícios mostram como infâncias marcadas por desamor, abandono e preconceitos influenciam a forma de exercer a parentalidade na vida adulta.
  • Margarida, de 37 anos, mãe de gémeas, questiona-se se hoje repete o comportamento da mãe fria e violenta; Carolina, de 48 anos, instituiu a “hora dos abraços” para reduzir a distância emocional com as filhas; Francisco, de 72 anos, lamenta não ter aproveitado emocionalmente com os filhos e agora desfruta com os netos.
  • A psicoterapeuta Ângela Rodrigues explica que a chegada de um filho funciona como um espelho da infância e pode exigir um confronto com a história pessoal para se tornar cuidador que desejam.
  • As cicatrizes aparecem de forma diferente entre mulheres e homens: as primeiras costumam carregar a exigência de perfeição e cuidado emocional dos pais, enquanto os segundos podem expressar repressão emocional, isolamento e dificuldade de intimidade.
  • O caminho para pacificar a infância passa pela integração das feridas, reconhecimento da imperfeição dos pais e construção de uma parentalidade consciente, com autonomia emocional para evitar a reativação de velhos padrões.

Margarida, Carolina e Francisco são personagens fictícios usados para ilustrar como traumas de infância podem acompanhar pais e avós na vida adulta. A reflexão chega ao Dia da Criança, celebrado em 1 de junho, para questionar se é possível romper com padrões de desamor, abandono e violência.

A história mostra que mães e pais tentam lidar com cicatrizes que ficaram ao longo dos anos. Margarida, 37, é mãe de gémeas e acorda diariamente a pensar se repetiu padrões de uma mãe distante. Carolina, 48, tem dois filhos e integrou a prática de abraços como forma de reduzir distância emocional desde antes da gravidez. Francisco, 72, observa que o seu relacionamento com os filhos ficou marcado pela ausência de partilha emocional, algo que hoje procura recuperar com os netos.

Os relatos, apresentados com nomes simulados, destacam a partilha de uma dor antiga e o esforço para ser diferente. Margarida reconhece que a relação com o pai foi marcada pela ausência e pela exigência de rendição, e que a experiência a levou a questionar como educa as filhas e a procurar justiça no tratamento entre as gémeas. Carolina relata que a prática de abraços surge como tentativa de encurtar uma distância afetiva herdada da progenitora.

A psicoterapeuta Ângela Rodrigues explica que o nascimento de um filho funciona como um espelho que devolve a imagem da própria infância. O processo de parentalidade consciente envolve enfrentar feridas antigas e ajustar contas consigo mesmo, para construir uma relação mais segura com os filhos. A especialista acrescenta que muitos adultos descobrem, na parentalidade, a necessidade de tratar as feridas antes de cuidar plenamente das crianças.

Segundo a especialista, as marcas emocionais aparecem de forma distinta entre mulheres e homens. Em mulheres, há uma maior tendência para a negligência emocional e a pressão pela perfeição, o que pode levar à parentalidade centrada nas necessidades dos outros. Em homens, o padrão costuma envolver repressão emocional e dificuldade em estabelecer intimidade, com possíveis explosões de raiva ou tendência para o excesso de trabalho.

Francisco, reformado, descreve a alegria de estar com o neto e de ter uma nova oportunidade de experiência parental, ainda que sinta tristeza pelas oportunidades perdidas com os filhos. A terapeuta sublinha que o caminho para a paz passa pela aceitação de que não existem pais perfeitos e pela coragem de olhar para as feridas, o que pode quebrar ciclos familiares.

Entre as mensagens centrais está o conceito de integração: fazer as pazes com a infância não é apagar o passado, mas incorporá-lo na parentalidade atual. Margarida afirma que a firmeza com as filhas decorre de experiências passadas, reconhecendo a necessidade de equilíbrio entre igualdade e carinho. Carolina mantém o foco no cuidado emocional com os filhos, sem permitir que a distância se perpetue.

Ao longo do processo, a terapeuta alerta para o risco de compensar as próprias faltas através dos filhos, o que pode tornar-se prejudicial. A autonomia emocional é apresentada como a meta, com a responsabilização equilibrada pelo próprio bem-estar emocional. A recomendação é buscar auto-observação contínua para transformar a parentalidade reativa em uma prática consciente, sem culpas, mas com alinhamento entre passado e presente.

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