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Abandonou a ciência para fugir à precariedade

Historiadora que dirigia projeto sobre o Holocausto abandona a investigação por contratos precários, passando a professora numa escola perto de Lisboa

Imagem de contexto do artigo "Deixei tudo". Virou costas à ciência para fugir à precariedade
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  • A historiadora Cláudia Ninhos deixou a investigação científica estável há mais de dez anos para dar aulas numa escola perto de Lisboa, por não conseguir conciliar investigação e ensino devido à precariedade contratual.
  • A investigadora chegou a coordenar um projeto sobre o Holocausto na imprensa ibérica, financiado publicamente, que ficou sem continuidade por ter aceito o emprego de docente.
  • Hoje é professora efetiva no público, no primeiro escalão, lecionando História e História da Cultura e das Artes a alunos do ensino básico e secundário, desde setembro.
  • O Dia Nacional dos Cientistas celebra-se a 16 de maio; a data reconhece o papel dos cientistas, mas a precariedade no emprego continua a ser um problema recorrente.
  • Dados do Observatório do Emprego Científico e Docente mostram que desde 2017 há muitos contratos com doutorados a terminar, com resistência de instituições a contratar para a carreira científica devido a subvenções insuficientes; decisões judiciais em 2025 mandaram abrir concursos para ingresso na carreira, mas a historiadora não pretende recorrer.

Dois anos após o término do seu contrato no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, Cláudia Ninhos deixou a investigação científica para abraçar a carreira docente. A mudança ocorreu numa altura em que os vínculos de investigadores são, em grande medida, precários, sustentando o debate sobre a valorização da ciência em Portugal.

A historiadora, de 41 anos, passou a lecionar História e História da Cultura e das Artes numa escola dos subúrbios de Lisboa, posição que assumiu em setembro. O objetivo era estávelção profissional, mesmo que tenha significado abandonar um projeto sobre o Holocausto na imprensa ibérica, já financiado publicamente.

Contexto da transição

A investigação que liderava era financiada por bolsas e contratos precários, o que dificultava a conciliação com o trabalho pedagógico diário. Ninhos refere que o tempo para ir aos arquivos era incompatible com as funções letivas, levando-a a aceitar a docência para assegurar a estabilidade.

À data, o concurso nacional de professores proporcionou-lhe colocação numa instituição de ensino básico e secundário, encerrando mais de uma década de atividade científica, com publicações, conferências internacionais e a curadoria de um museu local.

Panorama da precariedade na investigação

Dados do Observatório do Emprego Científico e Docente apontam para contratos de doutorados, muitos com termo incerto, a decorrer entre 2017 e hoje. As estatísticas revelam um registo volumoso de contratos de investigação, mas com poucos lugares estáveis.

O Governo implementou, em 2023, um programa de cofinanciamento para 704 lugares na carreira científica, com a segunda edição adiada para este ano. A legislação de estímulo ao emprego científico prevê contratos a prazo para doutorados, em substituição de bolsas, até uma possível carreira estável.

Desfecho pessoal e cenário atual

Apenas uma parte das instituições de ensino superior tem efetivado a transição para carreira científica estável, citando dificuldades de financiamento. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal Administrativo decidiu que algumas universidades devem abrir concursos para a carreira, mantendo uma linha de decisões semelhantes.

Cláudia Ninhos não contemplou recorrer aos tribunais para ingressar na carreira científica. Hoje, permanece como professora efetiva de primeiro escalão, com o foco na prática educativa e no que já foi estabelecido ao longo da sua formação.

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