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Abandonar a ciência para fugir à precariedade: motivações e riscos

Doutorados enfrentam precariedade; muitos migram para lecionar, como Cláudia Ninhos, encerrando mais de dez anos de investigação.

O Museu Aristides de Sousa Mendes localiza-se em Cabanas de Viriato
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  • Entre 2017 e este ano, já tinham sido celebrados 17.360 contratos com doutorados, mais da metade com termo ou termo incerto, segundo o Observatório do Emprego Científico e Docente.
  • Cláudia Ninhos, historiadora, saiu da investigação para dar aulas numa escola perto de Lisboa, depois de o contrato terminar no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. Deixou de trabalhar no projeto sobre o Holocausto na imprensa ibérica.
  • A historiadora justifica a mudança pela dificuldade de conciliar investigação com o ensino, já que a investigação exige tempo em arquivos e viagens, o que não é compatível com as aulas diárias.
  • O Dia Nacional dos Cientistas, assinalado a 16 de maio, reconhece o papel dos investigadores, mas a maior parte continua com vínculos precários ou bolsas; o registo mostra muitos contratos precários e subfinanciamento para a carreira científica.
  • Em 2023 o Governo criou um programa para cofinanciar lugares na carreira científica; a segunda edição foi adiada para este ano, mas a autora não planeia recorrer aos tribunais nem retornar à investigação.

Os dados do Observatório do Emprego Científico e Docente mostram que, entre 2017 e o ano em curso, foram celebrados 17.360 contratos com doutorados, maioria com termo ou termo incerto. A realidade envolve investigadoras que viram a carreira suspensa na prática diária.

Cláudia Ninhos, historiadora e curadora, abandonou a pesquisa após mais de uma década e passou a lecionar numa escola perto de Lisboa. O contrato anterior, no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, terminou há mais de um ano, levando-a a um concurso nacional de docentes.

Segundo a investigadora, a investigação exigia tempo para ir aos arquivos, algo incompatível com o regime de aulas diárias. Hoje, apesar do doutoramento e experiência universitária, trabalha como professora de História e História da Cultura e das Artes.

Contexto institucional

O Dia Nacional dos Cientistas, celebrado a 16 de maio, simboliza o reconhecimento público do papel da ciência. No entanto, a valorização profissional permanece limitada pelo recurso a bolsas e contratos precários, refletindo a falta de estabilidade.

Dados do Observatório mostram que, entre 2017 e 2024, 9046 contratos foram apenas de investigação, com a maior parte dirigidas a investigadores juniores. Os contratos de topo, de coordenador, somaram apenas 93.

Desafios da carreira científica

O registo de contratos aponta para um desequilíbrio entre investigação e carreira docente. Existem 465 contratos na investigação, contra 6860 na carreira docente. As universidades citam subfinanciamento para justificar a precariedade.

O Governo criou, em 2023, um programa de cofinanciamento para 704 lugares na carreira científica, com uma segunda edição prometida para 2025, adiada para este ano. As medidas não asseguram, contudo, a totalidade das necessidades.

Perspectivas futuras

Desde 2017, a legislação facilita a passagem de bolsas para contratos a prazo, com concursos abertos para a carreira científica ou docente. Em Lisboa, decisões judiciais obrigaram universidades a abrir concursos, reforçando o âmbito de ingresso na carreira.

Cláudia Ninhos não solicitou recurso aos tribunais para ingresso na carreira, e não para já pretende retomar a investigação. O seu percurso evidencia a tensão entre precariedade e aspirações profissionais.

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