- O assédio laboral é uma realidade amplamente disseminada nas artes performativas em Portugal, segundo um estudo do projeto MUDA, com maior vulnerabilidade entre trabalhadores precários.
- O estudo técnico-científico, o primeiro do género em Portugal, baseia-se em 611 profissionais das artes e 51 entrevistas, e identifica humilhação, intimidação, desvalorização profissional e comportamentos de natureza sexual.
- Dados preliminares de novembro indicaram que cerca de 75% dos inquiridos já viveram assédio moral e metade relatou assédio sexual, em ambos os casos há mais de três anos.
- Em assédio moral houve descrédito de horários de pausa e ambientes hostis; no assédio sexual, contacto físico não consentido foi reportado por 43,4% e agressão por 11,8%.
- O estudo revela que mais de 80% dos inquiridos nunca apresentaram queixa por falta de provas e medo de não serem acreditados, e o recurso a tribunais foi extremamente raro.
O assédio laboral é uma realidade amplamente disseminada nas artes performativas em Portugal, segundo um estudo técnico-c scientifico do projeto MUDA. A pesquisa envolve 611 profissionais do setor, com base em 51 entrevistas, realizada em Lisboa.
O estudo, apresentado esta segunda-feira, aponta que o assédio manifesta-se através de humilhação, desvalorização profissional e comentários de natureza sexual. A maioria dos casos ocorre há mais de três anos.
O projeto MUDA, liderado por Catarina Vieira, Raquel André e Sara de Castro, visa mapear situações de assédio e preparar respostas para melhorar o setor. O grupo reuniu investigadores de várias áreas de arte, criação e formação.
Resultados-chave
Cerca de 75% dos inquiridos relataram assédio moral e metade indicou assédio sexual, com longas vivências anteriores ao inquérito. Assédio moral inclui desrespeito de horários e ambientes hostis de intimidação.
Do total, 304 trabalhadores admitiram comportamentos que qualificam abuso sexual. Dez responderam estar a vivenciar assédio sexual no momento do inquérito. Contacto físico não consentido atingiu 43,4%.
Entre os que sofreram assédio sexual, 41% atribuíram autoria a pessoas em posição de chefia ou direção artística, seguidos de 15,7% a professores ou formadores. O recurso a tribunais é incomum.
Mais de 80% dos inquiridos nunca apresentaram queixa, por falta de provas e medo de não serem acreditados. Denúncias formais de assédio são raras e, quando ocorrem, são tardias.
Perfil dos participantes
A amostra revela idade média de cerca de 38 anos, predominância de mulheres, e maior concentração em zonas urbanas. O regime de trabalho mais comum é o de prestação de serviços, seguido de situações com contrato de trabalho por conta de outrem.
O teatro é a área mais representada no estudo (54%), seguido pela música (29,6%) e pela dança (23,9%). O relatório sublinha ainda a existência de casos de saúde mental entre os participantes.
Em relação à saúde, 112 inquiridos tinham diagnóstico formal de perturbação de saúde mental, como ansiedade ou depressão. Cerca de 41,4% recebiam acompanhamento psicológico ou psiquiátrico à data do inquérito.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, o setor cultural em Portugal empregava cerca de 197 mil pessoas em 2024. No final de 2025, o MUDA registou 15.503 profissionais nas artes performativas.
A equipa do MUDA nota que a amostra representa aproximadamente 4% da população registada neste setor, destacando limitações e a necessidade de mais dados para políticas públicas.
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