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O casal da mesa ao lado

Violência silenciosa em relações íntimas: o controlo subtil que normaliza abusos, mesmo em contextos de elegância pública

Falamos frequentemente de violência quando ela deixa marcas visíveis
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  • Num restaurante elegante, uma frase banal revela o controlo sobre a mulher: “andas a vestir-te melhor… com mais nível, sem decotes”, enquanto ele expõe o próprio sucesso; ela parece diminuir.
  • Em outra mesa, um pai ausenta-se repetidamente para chamadas; a mãe tenta gerir a filha de três anos que chora, enquanto o homem não regressa.
  • Não há violência física ou gritos; há silêncio, omissão e uma gestão do tempo e do corpo que normaliza o poder sobre a outra pessoa.
  • Dados apontam para violência digital e monitorização: 8,5% das mulheres relatam perseguição online e 10% dizem ter a localização monitorizada pelo parceiro; a Organização Mundial de Saúde estima que uma em cada três mulheres já sofreu violência física ou sexual ao longo da vida.
  • Um estudo da Universidade do Porto, com a UMAR, mostra que 68,2% dos jovens não reconhecem pelo menos um comportamento violento, sugerindo que controlo e violência psicológica são amplamente normalizados.

Num restaurante de ambiente elegante e reservado, uma jovem de cerca de 22 anos sentou-se com um rapaz da mesma idade. Em vez de um clima de celebração, escutou-se uma frase que alterou o cenário: “andas a vestir-te melhor desde que estás comigo… com mais nível, sem decotes.” A partir dali, a dinâmica de poder ficou evidente, ainda que silenciosa.

A mulher, descrita na altura como магнитica e de presença dominante, foi progressivamente contendo a sua expressão. Ele relatava com tom firme o seu sucesso profissional e a liderança que detinha, enquanto ela respondia com monossílabos. O episódio demonstrou uma forma de violência não anunciada, centrada em controlar o corpo e a autonomia da parceira.

Não foi o único facto ocorrido. Noutro casal, um homem afastou-se repetidamente para atender uma chamada de quase uma hora, deixando a mulher e a filha de três anos sozinhas à mesa. Ao regressar, ele pediu que o prato fosse deixado, e a mulher não o tocou. Ela acabou por sair com a filha, enquanto ele permanecia. A situação ilustra uma ausência que se traduz em desconsideração e gestão desigual da responsabilidade parental.

Estas situações refletem padrões de violência que não se manifestam com gritos ou agressões visíveis. Em vez disso, aparecem através de normas implícitas de comportamento e da normalização de controle diário. A presença de uma observação constante, de partilha de telemóvel, de localização e de perguntas sobre onde está, com quem e porquê, pode funcionar como forma de vigilância e pressão psicológica.

Dados oficiais reforçam a gravidade do tema. A Agência Europeia dos Direitos Fundamentais relata que 8,5% das mulheres relatam perseguição online e 10% referem ter a localização monitorizada pelo parceiro. A Organização Mundial de Saúde aponta que uma em cada três mulheres pode ter sido vítima de violência física ou sexual ao longo da vida, muitas vezes no contexto de relações íntimas.

Estudos académicos indicam also que a normalização da violência começa ainda na juventude. Um inquérito da Universidade do Porto, com a UMAR, mostra que 68,2% dos jovens não reconhecem como violento pelo menos um comportamento analisado, destacando o controlo, a perseguição e a violência psicológica como formas mais legitimadas.

Neste enquadramento, o casal da mesa ao lado não surge como caso isolado, mas como parte de um conjunto de situações frequentes. A leitura sugere que a violência silenciosa pode, por vezes, ser mais persistente do que os episódios mais visíveis, moldando relações em áreas privadas da vida que, no entanto, exercem impacto público.

Num contexto mais amplo, a coexistência de comportamentos de controlo com a normalização social e digital reforça a necessidade de políticas públicas, educação e suporte às vítimas para combater dinâmicas de abuso que se comunicam por vias sutis e profundas.

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