Uma dieta sustentável poderia evitar cerca de 23 mil mortes por ano em Portugal, segundo Marco Springmann, investigador da Universidade de Oxford. A estimativa resulta de modelos que cruzam padrões alimentares, risco de doença e impacto ambiental. Springmann falou sobre o tema no 2.º Congresso Nacional da Saúde e Ambiente, em Lisboa, a 9 e 10 de abril, na Gulbenkian.
A pesquisa sustenta que uma alimentação planetária, baseada em vegetais, com carne reduzida, pode reduzir casos de doenças cardiovasculares, cancro, diabetes e obesidade. Não é necessária a abolição total da carne, mas sim um consumo moderado conforme padrões recomendados.
Dieta planetária e flexitariana
A abordagem de dieta planetária estabelece que a base alimentar deve ser vegetal, com fruta, legumes, cereais integrais e leguminosas. Carnes, ovos e peixes passam a ser consumidos com parcimónia, mantendo-os no prato em quantidade menor.
Para Springmann, as dietas com menos carne ajudam a mitigar a pressão sobre o clima, o uso da água e o solo. As estimativas indicam que, em Portugal, reduzir o consumo de carne vermelha e laticínios pode diminuir significativamente a emissão de gases e o peso ambiental associado.
Contexto global e impactos de saúde
O trabalho de Springmann conecta a produção e o consumo de comida a uma parte relevante da crise climática global. Em paralelo, dieta rica em carne processada e açúcares está associada a doenças crónicas. Em países de renda elevada, cerca de 20% das mortes podem ter relação com desequilíbrios alimentares.
Em Portugal, a adoção de dieta flexitariana poderia evitar milhares de mortes anuais por doenças cardíacas, AVC, vários tipos de cancro, diabetes e doenças respiratórias, segundo o pesquisador. Observa-se, contudo, que o país ainda está longe deste padrão.
Acesso, políticas e custos
Springmann alerta para a necessidade de políticas públicas que acompanhem a mudança de hábitos alimentares. Incentivos que tornem alimentos saudáveis mais acessíveis e penalizem opções nocivas são essenciais, com exemplos de contratos públicos que privilegiem escolhas com menor impacto ambiental.
A importância de políticas de alimentação não deve ser encarada como tema partidário. O investigador ressalva que a saúde pública e a proteção ambiental não são questões de fronteiras ideológicas, e que a resistência a políticas novas pode frear avanços.
Subsídios na UE e transição
Segundo o autor, subsídios agrícolas na União Europeia mantêm práticas que prejudicam a saúde e o clima. A reforma de apoios requer, entre outros fatores, apoio ao reequilíbrio de produção e fundos de transição para os agricultores que mudem de direção.
Acessibilidade de uma dieta saudável também é discutida. Em economias desenvolvidas, alimentos vegetais simples podem ser mais baratos que carne processada. A redução de doença crónica traria menos despesa pública e beneficiaria a produtividade da população.
Conclusão operativa
A mensagem central é clara: a transformação dos sistemas alimentares demanda vontade política, participação cívica e escolhas diárias mais conscientes. Preservar ecossistemas e proteger a saúde caminham juntos, segundo Springmann, que defende ações concretas para um futuro alimentar mais sustentável.
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