- Marco Springmann, em Lisboa, defende que uma dieta sustentável, flexitariana e com base vegetal, pode evitar cerca de 23 mil mortes por ano em Portugal.
- Em Portugal, a adoção da dieta planetária evitaria aproximadamente seis mil mortes por doença cardíaca, três mil por AVC e mais de dez mil por câncer, além de reduzir mortes por diabetes e doenças respiratórias.
- A proposta não é veganismo, mas uma transição para uma alimentação com mais vegetais: carne vermelha limitada a uma vez por semana, aves até duas vezes, peixe até duas vezes, com maior consumo de legumes, leguminosas, frutos secos e cereais integrais.
- A mudança exige políticas públicas e incentivos que tornem alimentos saudáveis mais acessíveis e penalizem os menos sustentáveis; a ideia inclui a promoção da refeição pública sem carne em cantinas estatais.
- O discurso está politizado; Springmann critica a apropriação do tema por partidos, defendendo que políticas de saúde e proteção ambiental não devem ser ideológicas, e aponta para a necessidade de reformas nos subsídios agrícolas da União Europeia.
Uma dieta sustentável poderia evitar cerca de 23 mil mortes por ano em Portugal, segundo Marco Springmann, investigador da Universidade de Oxford. A estimativa resulta de modelos que cruzam padrões alimentares, risco de doença e impacto ambiental. Springmann falou sobre o tema no 2.º Congresso Nacional da Saúde e Ambiente, em Lisboa, a 9 e 10 de abril, na Gulbenkian.
A pesquisa sustenta que uma alimentação planetária, baseada em vegetais, com carne reduzida, pode reduzir casos de doenças cardiovasculares, cancro, diabetes e obesidade. Não é necessária a abolição total da carne, mas sim um consumo moderado conforme padrões recomendados.
Dieta planetária e flexitariana
A abordagem de dieta planetária estabelece que a base alimentar deve ser vegetal, com fruta, legumes, cereais integrais e leguminosas. Carnes, ovos e peixes passam a ser consumidos com parcimónia, mantendo-os no prato em quantidade menor.
Para Springmann, as dietas com menos carne ajudam a mitigar a pressão sobre o clima, o uso da água e o solo. As estimativas indicam que, em Portugal, reduzir o consumo de carne vermelha e laticínios pode diminuir significativamente a emissão de gases e o peso ambiental associado.
Contexto global e impactos de saúde
O trabalho de Springmann conecta a produção e o consumo de comida a uma parte relevante da crise climática global. Em paralelo, dieta rica em carne processada e açúcares está associada a doenças crónicas. Em países de renda elevada, cerca de 20% das mortes podem ter relação com desequilíbrios alimentares.
Em Portugal, a adoção de dieta flexitariana poderia evitar milhares de mortes anuais por doenças cardíacas, AVC, vários tipos de cancro, diabetes e doenças respiratórias, segundo o pesquisador. Observa-se, contudo, que o país ainda está longe deste padrão.
Acesso, políticas e custos
Springmann alerta para a necessidade de políticas públicas que acompanhem a mudança de hábitos alimentares. Incentivos que tornem alimentos saudáveis mais acessíveis e penalizem opções nocivas são essenciais, com exemplos de contratos públicos que privilegiem escolhas com menor impacto ambiental.
A importância de políticas de alimentação não deve ser encarada como tema partidário. O investigador ressalva que a saúde pública e a proteção ambiental não são questões de fronteiras ideológicas, e que a resistência a políticas novas pode frear avanços.
Subsídios na UE e transição
Segundo o autor, subsídios agrícolas na União Europeia mantêm práticas que prejudicam a saúde e o clima. A reforma de apoios requer, entre outros fatores, apoio ao reequilíbrio de produção e fundos de transição para os agricultores que mudem de direção.
Acessibilidade de uma dieta saudável também é discutida. Em economias desenvolvidas, alimentos vegetais simples podem ser mais baratos que carne processada. A redução de doença crónica traria menos despesa pública e beneficiaria a produtividade da população.
Conclusão operativa
A mensagem central é clara: a transformação dos sistemas alimentares demanda vontade política, participação cívica e escolhas diárias mais conscientes. Preservar ecossistemas e proteger a saúde caminham juntos, segundo Springmann, que defende ações concretas para um futuro alimentar mais sustentável.
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