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Acusações de “histeria” e “queixinhas” retiram às mulheres autoridade sobre o corpo

Expressões como “histeria” e “queixinhas” deslegitimam o sofrimento feminino, induzem autosilenciamento e atrasam diagnósticos, impactando a saúde das mulheres

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  • Patrícia Câmara, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, afirma que expressões como “histeria” e “queixinhas” desqualificam o sofrimento das mulheres.
  • Explica a diferença: “histeria” tem peso histórico de patologização do feminino; “queixinhas” é mais comum, infantiliza e desvaloriza o sofrimento sem aparência de teoria complexa.
  • Ambas as expressões retiram às mulheres a autoridade sobre o próprio corpo e prejudicam o reconhecimento e a transformação do sofrimento.
  • A somatização nas mulheres pode relacionar-se com dores pélvicas, menstruais, musculos-esqueléticas e síndromes crónicas como fibromialgia, advindas de pressões mantidas ao longo da vida.
  • O autosilenciamento pode atrasar diagnósticos, romper a confiança no corpo e levar à cronificação do sofrimento.

A dor das mulheres tem sido tema de debate há séculos, com reconhecimento muitas vezes condicionado pela mensurabilidade clínica. A conversa atual aponta para os riscos de expressões como queixinhas e histéria, que podem silenciar o sofrimento no corpo feminino.

Patrícia Câmara, psicanalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, explica que ambos os termos descredibilizam o que as mulheres sentem, cada um à sua maneira. A expressão histérica tem um peso histórico de patologização, enquanto queixinhas tende a banalizar o sofrimento, instalando vergonha de forma mais sutil.

Enquanto histéria carrega um legado de descontrole, queixinhas atua como arma silenciosa, dificultando o reconhecimento do sofrimento. Os efeitos são parecidos: inviabilizam a legitimidade da experiência corporal feminina e reduzem a autoridade sobre o próprio corpo.

Para a especialista, as duas formas de deslegitimar refletem uma desvalorização estrutural do feminino e do que se vive no corpo. O resultado é uma desorganização psicossomática que impede que a dor seja reconhecida, compartilhada e transformada.

A somatização, particularmente entre mulheres, é associada a dores pélvicas, menstruais, musculoesqueléticas e a síndromes como a fibromialgia. Essas manifestações podem ter raízes em pressões prolongadas ao longo da vida, especialmente em fases como adolescência, gravidez e menopausa.

A terapeuta destaca que a vulnerabilidade, vista culturalmente como falha associada ao feminino, não é fraqueza. Do ponto de vista psicossomático, as somatizações são respostas do organismo a relações psicofisiológicas levadas ao limite, representando estratégias de regulação em contextos exigentes.

Quando o sofrimento não encontra espaço, instala-se o autosilenciamento. Tal dinâmica favorece atrasos diagnósticos em condições como endometriose e dor crónica, elevando o risco de cronificação. O caminho bloqueado também pode afectar a confiança no próprio corpo.

Segundo Câmara, o isolamento do sofrimento impede o reconhecimento e a partilha da dor, deixando-a sem lugar no além do olhar alheio. O resultado é uma experiência que se agrava, com efeitos que se acumulam no corpo ao longo do tempo.

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