A limerência é descrita como um estado de desejo intrusivo por outra pessoa, associado a ansiedade e comportamentos obsessivos. O termo ganhou popularidade nas redes sociais e ficou registado no dicionário Priberam em 2024.
Inês, uma jovem de 21 anos, recorda que o seu apego por rapazes não seguia o mesmo tempo de amigas. Durante a adolescência, observou sinais de uma obsessão que marcou várias fases da sua vida, mesmo sem conhecer o conceito na altura.
Ao longo dos anos, Inês viveu momentos de forte dependência emocional e ciúmes intensos, especialmente em relações anteriores. A psicóloga Maria João Padrão afirma que estes padrões refletem uma idealização extrema e uma ansiedade constante.
O fenómeno entre redes e clínica
A psicóloga explica que o limerente tende a ver o outro como perfeito e a buscar refeições emocionais em migalhas de validação, como likes e comentários. Nas redes, estes gatilhos intensificam a vigilância e o desejo de reciprocidade.
Inês não conhecia o rótulo, mas reconhece comportamentos de expectativa e de posse. Houve situações de observação constante de pessoas ligadas aos seus interesses, com sinais de que o sentimento não era apenas seu.
Entre 2021 e 2023, a dependência emocional de Inês ficou marcada pela vontade de conhecer pessoalmente alguém com quem mantinha uma ligação distanciada, antes de qualquer reciprocidade. O vínculo acabou quando o sentimento foi correspondido.
Consequências e caminhos
A mudança ocorreu quando Inês passou a valorizar a autonomia da relação e a aceitar a imprevisibilidade afetiva. O companheiro atual não tinha conhecimento dos episódios de obsessão. A psicóloga sublinha que a limerência pode desaparecer com a realidade da relação proporcionada pela reciprocidade.
Para a autora, o fenómeno nasce da incapacidade de lidar com a complexidade das pessoas reais, o que dificulta a continuidade de relações estáveis. A infância, com vínculos familiares inseguros, pode aumentar a vulnerabilidade a este padrão.
A tecnologia também é apontada como factor de risco, com algoritmos a mostrar apenas aquilo que o utilizador quer ver, dificultando a perceção de outras personalidades. O autodiagnóstico pela internet é outra preocupação da psicóloga.
Abordagens terapêuticas
A entrada do termo no dicionário facilita o reconhecimento da dor sem isolamento, nota a especialista. A recomendação é a psicoterapia para autoconhecimento e o desenvolvimento de estratégias de gestão emocional.
Atividades artísticas aparecem como complemento útil, contribuindo para a saúde mental e o equilíbrio emocional. O objetivo é fortalecer a autonomia emocional e reduzir a necessidade de validação externa.
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