- Em 2025, 14,1% dos adultos recorreram a médico de família no privado, e cerca de 70% já tinham médico de família atribuído pelo SNS.
- O motivo principal para escolher o privado é a cobertura de seguro de saúde ou outra forma de dupla cobertura, não a ausência de médico de família no SNS.
- Ter seguro de saúde aumenta em cerca de 39 pontos percentuais a probabilidade de usar médico de família no privado; há também ganhos significativos entre subsistemas privados (24,5 p.p.), ADSE (15,2 p.p.) e ADM (10,8 p.p.).
- A perda de acesso a médico de família no SNS eleva a probabilidade de recorrer ao privado em apenas 6,3 p.p., ou seja, de forma moderada.
- Regiões com maior uso do privado são Algarve (19,3%) e Grande Lisboa (16,8%), seguidas de Grande Porto (13,6%) e Norte Litoral (11,5%), com dupla utilização presente mesmo onde há elevada cobertura pública.
- A probabilidade de manter seguro de saúde privado aumenta com o estatuto socioeconómico; o estado de saúde autorrelatado tem impacto limitado na decisão de recorrer ao privado.
- Conclui-se que o crescimento dos seguros privados pode estar a promover um hábito de recorrer ao setor privado, não sendo apenas uma consequência da falta de médicos de família no SNS.
A maioria dos adultos que procurou médico de família no setor privado em 2025 já tinha clínico atribuído pelo SNS. O estudo aponta o seguro de saúde ou outra cobertura complementar como o principal motivo para recorrer ao setor privado.
Segundo a análise conduzida pelos investigadores Carolina Santos e Pedro Pita Barros (Nova SBE), 14,1% da população adulta recorreu ao médico de família no privado no ano passado, e cerca de 70% tinham médico de família atribuído pelo SNS. A duplicidade de cobertura é comum.
O estudo indica que o fator decisivo não é a falta de médico no SNS, mas a existência de seguro de saúde privado. Aproximadamente 4,2% da população recorre ao privado por não ter médico no SNS, e 10% tem dupla cobertura.
Resultados-chave
Ter seguro de saúde aumenta em cerca de 39 pontos percentuais a probabilidade de recorrer ao privado. Beneficiários de subsistemas apresentam ganhos de 24,5 p.p. (subsistemas privados), 15,2 p.p. (ADSE) e 10,8 p.p. (ADM, PSP, GNR).
A ausência de médico de família no SNS eleva a probabilidade de recorrer ao privado em apenas 6,3 p.p., significativamente menos do que o efeito do seguro.
Mesmo com médico no SNS, a probabilidade de recorrer ao privado sobe de 13,4% para 18,7% se esse acesso se perder, mostrando uma subida moderada.
Regiões com maior propensão ao privado são o Algarve (19,3%) e a Grande Lisboa (16,8%), seguidas pela Grande Porto (13,6%) e Norte Litoral (11,5%).
Paralelamente, zonas com cobertura pública elevada mantêm níveis de dupla utilização elevados: Norte Litoral (10,9%) e Grande Porto (12,6%), o que indica que a procura pelo privado não resulta apenas de falhas no SNS.
Fatores socioeconómicos e implicações
A probabilidade de adquirir seguro privado aumenta com o estatuto socioeconómico, destacando a sensibilidade do seguro a fatores económicos, mesmo quando se consideram educação, profissão e região.
A autoavaliação de saúde tem impacto limitado na decisão de recorrer ao privado, sugerindo que a decisão está mais ligada a capacidade financeira e recursos económicos do que à necessidade clínica imediata.
Os autores concluem que o crescimento de seguros privados pode promover um hábito de recurso ao setor privado que não depende exclusivamente da falta de cobertura no SNS. A existência de preferências individuais é apontada como área para estudo adicional.
O estudo, da Iniciativa para a Equidade Social, usa dados do Inquérito de Base ao Relatório de Acesso aos Cuidados de Saúde (2023 e 2025) e envolve a Fundação “la Caixa”, o BPI e a Nova SBE.
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