- Um estudo do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa analisou 510 serviços de Apoio Domiciliário (SAD) em Portugal, destacando desigualdades de acesso e qualidade.
- Dos SAD analisados, 85,9% são não lucrativos, 8,6% lucrativos e 5,5% mistos.
- Os recursos financeiros influenciam o acesso: utentes com menos recursos recebem, em média, apenas uma hora diária de cuidados, especialmente nos serviços não lucrativos.
- O setor lucrativo oferece cobertura diária completa e serviços personalizados, enquanto o setor não lucrativo enfrenta escassez de profissionais e custos elevados.
- O estudo propõe medidas para reforçar a eficácia, integração e sustentabilidade, como revisão do financiamento, integração com saúde, valorização de equipas e uso da teleassistência.
O acesso aos serviços de apoio domiciliário em Portugal revela desigualdades significativas, com utentes de menor rendimento a receberem apenas uma hora diária de cuidados. O estudo, divulgado nesta sexta-feira, analisa modelos de Serviço de Apoio Domiciliário SAD e propõe medidas para reforçar eficácia, integração e sustentabilidade.
Conduzido por Maria Irene Carvalho e Carla Ribeirinho, do ISCSP da Universidade de Lisboa, o trabalho insere-se no âmbito do programa Science4Policy, com financiamento PLANAPP e parceria com a Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
Foram analisados 510 SAD, dos quais 85,9% são organizações não lucrativas, 8,6% lucrativas e 5,5% mistas. A distribuição incide principalmente no setor não lucrativo, com impactos na qualidade e cobertura dos serviços.
Os resultados indicam que o setor lucrativo oferece cobertura diária completa e serviços personalizados, enquanto o setor não lucrativo enfrenta escassez de profissionais, custos logísticos elevados e dificuldades de recrutamento.
Em termos de custos, utentes do setor não lucrativo pagam entre 100 e 200 euros (28,2%) ou entre 201 e 300 euros (34,1%) mensais, já no setor lucrativo os valores variam entre 501 e 1.000 euros e entre 1.001 e 1.500 euros.
Carla Ribeirinho assinala que a desigualdade de acesso representa uma séria ameaça à justiça e à coesão social, destacando que o setor lucrativo oferece cuidados personalizados 24 horas por dia, sete dias por semana, com custos mais elevados.
O estudo aponta ainda que, no setor não lucrativo, predominante em zonas rurais, as respostas costumam limitar-se a cuidados básicos como higiene, alimentação e tratamento de roupas, não respondendo às necessidades mais complexas.
Entre as conclusões, a equipa destaca a média de apenas uma hora de cuidados diários no setor da economia social e solidária, independentemente de contextos de demência ou isolamento social. A distribuição de recursos não satisfaz as expectativas de utentes e famílias.
Desafios de integração e continuidade de cuidados
O estudo alerta para a falta de integração com unidades de saúde, cuidados continuados e reabilitação, o que compromete a continuidade de intervenção, sobretudo em casos complexos.
A investigação recomenda uma revisão do modelo de financiamento, adaptado à complexidade e ao território, bem como a valorização das equipas, a capacitação de profissionais e a integração de cuidadores informais.
Caminhos propostos e necessidade de inovação
Outras propostas passam pela melhoria do planeamento comunitário, diversificação de serviços e utilização de tecnologia, incluindo teleassistência, para reduzir desigualdades no acesso aos cuidados.
Os autores defendem que a tendência europeia de envelhecimento em casa deve ser acompanhada por modelos que respondam às necessidades reais das pessoas idosas e das suas famílias, sem reforçar desigualdades.
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