- Um estudo do Centro Levada, em nome da Sociedade Sakharov Alemã, indica que 55% dos russos veem a Alemanha como o país mais hostil, substituindo o Reino Unido pela primeira vez; o índice aumentou 40 pontos desde maio de 2020.
- A propaganda russa não é uniforme: na Rússia é usada para legitimar a guerra e apresentar o Ocidente como inimigo, enquanto no estrangeiro é adaptada a grupos-alvo específicos, como a extrema-direita alemã.
- A exploração de debates políticos internos na Alemanha é uma ferramenta central, ligando problemas como preços de energia e migração a narrativas que favorecem o Kremlin.
- Casos de atores pró-Kremlin na Alemanha, incluindo Eugen Schmidt (AfD) e um canal de YouTube em russo, mostram ligações com a Rússia e polémicas que ganham audiência entre russófonos e simpatizantes da extrema-direita.
- Plataformas como Telegram, bem como projetos de desinformação e media outlets pró-Rússia, continuam a ampliar narrativas favoráveis à Rússia, mesmo após sanções e restrições internacionais.
A propaganda russa utiliza debates internos da Alemanha para avançar o seu objetivo estratégico. Um estudo do Centro Levada, em Moscovo, aponta 55% dos russos considerarem a Alemanha como o país mais hostil, ultrapassando o Reino Unido e os EUA. A amostra ocorreu em 2025, em nome da Sociedade Sakharov Alemã.
A conclusão geral é que não há uma imagem única da adversária. A propaganda funciona com diferentes mensagens, adaptadas a cada público, visando avançar interesses russos, como a atenuação de sanções e a legitimidade de ações na Ucrânia.
Na prática, o Kremlin esforça-se por moldar narrativas que consolidem a ideia de um Ocidente hostil desde 1990. A ideia central é apresentar a Rússia como renascida e o Ocidente como antagonista, o que legitima sentimentos de mobilização interna.
Nos meios alemães de extrema-direita, a Rússia surge como potência forte e parceira económica indispensável. O objetivo é justificar o levantamento de sanções e reforçar uma agenda de valores tradicionais, apontando a Rússia como guardiã da ordem.
A política interna funciona como munição. Debates sobre preços energéticos, sanções e migração são usados para favorecer conteúdos pró-Kremlin. O objetivo é ligar notícias sensíveis a mensagens que favoreçam o AfD e aliados.
Um caso em destaque é Eugen Schmidt, ex-deputado do Bundestag pela AfD. Tem actividades de comentário político em russo num canal próprio, mantendo ligações com audiências russóicas na Alemanha.
Schmidt enfrentou investigações sobre ligações a indivíduos ligados ao FSB e discutiu potencial atraso de entregas de tanques à Ucrânia. Contudo, não houve confirmação de medidas oficiais baseadas nesses relatos.
O fenómeno não se restringe aos canais em alemão. O podcast em inglês Russians With Attitude tem dois ultranacionalistas russos, com presença forte em redes e apelos a apoios financeiros a militares russos.
A maior parte da sua influência ocorre através de criadores de conteúdo com alcance considerável. O canal Golos Germanii, da Rússia, e figuras como Alina Lipp e Thomas Röper continuam activos, com sanções da UE.
Impacto e estratégias de alcance
A propaganda distingue dois públicos: a diáspora russofalante e apoiantes da extrema-direita alemã. A primeira enfrenta narrativas de identidade e migração, a segunda apresenta a Rússia como estabilidade e economia forte.
Redes sociais funcionam como amplificadores. O Telegram é especialmente relevante para comunidades russófonas, com ligações diretas a conteúdos pró-Kremlin. Reguladores russos já consideram medidas de controlo de informação.
A investigação também aponta para a existência de campanhas de desinformação associadas a plataformas falsas, que simulam marcas de imprensa para semear desconfiança nas instituições. A Rússia mantém ainda canais oficiais como RT DE.
As autoridades alemãs observam que a percepção pública mudou, com maior consciência sobre operações de influência. Ainda assim, a propaganda adapta-se, usando canais menos visíveis para contornar sanções e rastreio público.
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