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Memórias de presos políticos orientam a redescoberta da Frigideira do Tarrafal

Testemunhos de presos políticos guiaram arqueólogos à redescoberta da Frigideira no Tarrafal, levando o Instituto do Património Cultural a rever os painéis do Museu da Resistência

Trabalhos dos arqueólogos que começaram a trazer à luz do dia o que resta da "Frigideira", cela de tortura da ditadura portuguesa, no campo de concentração do Tarrafal
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  • Memórias de presos políticos levaram arqueólogos a localizar a conhecida “Frigideira”, espaço de tortura do Tarrafal que tinha sido destruído pelo regime.
  • A área fica 160 metros a sul da entrada do antigo campo, e as escavações estão a esclarecer fundações, chão e paredes que definem o perímetro, respeitando descrições históricas, como sete metros por 3,5.
  • A redescoberta surge no âmbito da candidatura do local a Património da Humanidade pela UNESCO e envolve o Instituto do Património Cultural de Cabo Verde.
  • O ministro da Cultura, Augusto Veiga, considerou o achado histórico e afirmou que confirma a versão dos prisioneiros da primeira fase sobre a privação de liberdade e a tortura.
  • A descoberta vai levar o IPC a rever os painéis do Museu da Resistência, integrando novos elementos e reforçando a relação entre atos de resistência, sofrimento e direitos humanos.

O espaço de tortura conhecido como a “Frigideira” foi redescoberto graças a memórias de presos políticos do Tarrafal, Cabo Verde. A arqueologia aponta para uma zona exterior, a 160 metros da entrada principal, onde sob pilha de pó emergem fundações de betão.

A equipa, liderada por André Teixeira, arqueólogo da Universidade Nova de Lisboa, descreve o achado como parte da primeira intervenção no antigo campo, hoje Museu da Resistência, no âmbito da candidatura a Património da Humanidade. A explosão de ruídos de máquinas marcou o início da escavação.

Na pesquisa, as descrições dos testemunhos cruzam-se com evidências materiais. A intervenção revela fundações, chão e paredes que definem o perímetro da estrutura, cuja configuração corresponde a sete metros por três e meio, capaz de alojar 20 pessoas em punição.

Testemunhos que guiaram o registo

Entre os relatos usados para localizar a Frigideira estão o de Pedro Soares, autor de Tarrafal, Campo da Morte Lenta, e o de Cândido Oliveira, antigo selecionador nacional de futebol, que fornecem indicações sobre a localização de elementos-chave do espaço.

A Frigideira foi demolida após a Segunda Guerra Mundial, num esforço do regime para ocultar elementos negativos. A sua localização perdeu-se no tempo, à medida que se erguiam novas estruturas no exterior do campo.

Impacto na memória e no património

A presidente do IPC de Cabo Verde, Ana Samira Baessa, afirma que a marca da Frigideira persiste nas memórias da segunda fase do campo, mantendo a referência ao maior espaço de tortura ligado ao sistema repressivo.

O ministro da Cultura, Augusto Veiga, considerou a descoberta histórica, defendendo que os vestígios corroboram a narrativa dos presos da primeira fase sobre privação de liberdade e tortura.

A redescoberta leva o IPC a rever os painéis do Museu da Resistência e a integrar novos elementos, num esforço de preservar a memória e evitar repetições de atrocidades.

O Tarrafal, conhecido como Campo da Morte Lenta, funcionou em duas fases, entre 1936-1954 e 1961-1974, registando mais de 500 detenções. Uma lápide no interior lista 36 mortos, incluindo 32 portugueses, dois guineenses e dois angolanos.

As intervenções arqueológicas continuam, com foco na área externa do campo, incluindo zonas como colonato, granja e pedreira, que auxiliam a interpretação histórica do espaço.

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