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Do ritual ao combustível: a filosofia de beber café

Do ritual etíope ao consumo rápido ocidental, o tempo transforma o ato de beber café em símbolo de relação social ou produtividade

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  • O café tem origem na Etiópia, associada à lenda de um pastor de ovelhas que percebeu energia nos frutos vermelhos do arbusto Kaffa.

  • Na Etiópia existe uma cerimónia tradicional de preparação e consumo do café, que envolve torra, moagem e a preparação numa jarra chamada jebena; costuma ser conduzida por mulheres e pode durar até três horas, fortalecendo relações sociais.

  • Em sociedades ocidentais o consumo é geralmente rápido, ligado a ganhar energia para tarefas, contrastando com a fruição de um tempo de qualidade na cerimónia etíope.

  • O texto recorre a Hannah Arendt, Guy Debord e Santo Agostinho para reflectir sobre tempo, labor e a relação entre economia e vida quotidiana.

  • A cerimónia do café etíope é apresentada como exemplo de tempo vivido com significado, sugerindo uma experiência mais rica do que a mera eficiência produtiva.

A bebida que hoje é símbolo de energia global teve origem na Etiópia. Diz a tradição que o café começou a ser consumido após um pastor perceber a energia dos seus animais ao comer frutos avermelhados do arbusto. A partir daí ganhou expressão cultural no país.

A cerimónia do café na Etiópia é ritual. Os grãos são torrados, moídos e preparados numa jarra de barro chamada jebena. Normalmente, as mulheres conduzem o ritual e servem o café em pequenas xícaras sem alças, numa cerimónia que pode durar até três horas.

Este ritual tem como objetivo principal fortalecer laços sociais. Familiares, amigos e vizinhos partilham histórias, resolvem desentendimentos e pedem bênçãos durante a preparação e a degustação da bebida.

A diferença do tempo na prática

Ao ocidente, o consumo de café aproxima-se de um tempo escasso. A bebida é muitas vezes consumida para ganhar energia e cumprir tarefas rápidas, sem a mesma espera ou ritual da Etiópia.

Especialistas em filosofia apontam que o tempo é vivido de forma diferente consoante o contexto cultural. A prática etíope valoriza a qualidade do tempo partilhado, não apenas a sua duração.

O pensador Hannah Arendt é citado para explicar a crítica à sociedade atual, onde o labor contínuo e a busca pela abundância moldam a vida. O tempo, defendem-se, tem de ser mais do que uma métrica operacional.

Analistas associam a ideia de que a economia molda não só o trabalho, mas toda a existência humana. Assim, a vida pode tornar-se uma sequência de ações repetitivas com foco na eficiência temporal.

O debate também recorre ao conceito de tempo como experiência interior. Para Santo Agostinho, o tempo não é apenas medida, mas vivência de memória, atenção e expectativa, que não deve ser reduzida a números.

Vínculos entre tradição e modernidade

Por isso, a cerimónia do café etíope pode soar estranha a quem vive uma rotina marcada pela pressa. Ela recorda que o tempo pode ser vivido com significado, não apenas gerido como recurso.

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