- Um estudo da Nature conclui que a maioria das avaliações sobre subida do nível do mar subestima a altura real da superfície oceânica, com diferença média global de cerca de 30 centímetros e mais de um metro em regiões como o Sudeste Asiático e o Indo-Pacífico.
- Analisando 385 artigos entre 2009 e 2025, os investigadores constataram que mais de 99% trataram inadequadamente a relação entre o nível do mar e a elevação costeira, baseando-se em geóides em vez de medições diretas do nível do mar por satélite.
- O geóide não incorpora dinâmica oceânica (ventos, correntes, marés e temperatura da água), o que resulta numa subestimação sistemática do risco costeiro.
- Ao corrigirem os cálculos com medições diretas, o impacto aumenta: pode haver subestimação de 0,2 a 0,3 metros a nível global, chegando a mais de 68% de detenções populacionais submersas e até 132 milhões de pessoas adicionais em risco.
- Em Portugal, zonas vulneráveis como Costa da Caparica, estuário do Tejo e Sado podem enfrentar riscos mais cedo, necessitando potencialmente revisões nos planos de adaptação e investimento em proteção costeira.
Um estudo publicado na revista Nature alerta que a maioria das avaliações científicas sobre a subida do nível do mar pode subestimar significativamente a altura real da superfície oceânica. A diferença média global fica à volta de 0,2 a 0,3 metros, podendo superar um metro em regiões como o Sudeste Asiático e o Indo-Pacífico. Os autores descrevem uma falha interdisciplinar com consequências para milhões de pessoas.
A investigação analisou 385 estudos entre 2009 e 2025, dedicados aos impactos da subida do nível do mar e aos riscos costeiros. Verificou-se que a relação entre o nível do mar e a elevação do terreno é frequentemente tratada de forma inadequada.
Os autores destacam que mais de 90% dos trabalhos utilizaram o geóide — um modelo gravitacional — para estimar o nível do mar, em vez de medições diretas da altura do mar por satélite. O geóide não incorpora ventos, correntes, marés ou temperatura da água, o que pode levar a subestimações do risco costeiro.
Mais de 99% das publicações analisadas não combinaram adequadamente as duas dimensões: elevação costeira e altura do mar medida. Cerca de 9% uniram dados, mas com alinhamento incorreto; menos de 1% integraram as medições do terreno com as leituras do nível do mar de forma correta.
O estudo afirma que, ao corrigir os cálculos, o impacto sobre populações e territórios muda substancialmente. Em média, o uso de um nível do mar presumido subestima a população exposta por até 68%, e, em alguns casos, a subestimação pode chegar a 12% mesmo quando houve alguma combinação de dados.
A correção global indica que, com um aumento hipotético de um metro no nível do mar, mais território pode ficar submerso e até 132 milhões de pessoas adicionais podem ficar em risco. Em Portugal, zonas já identificadas como vulneráveis — como a Costa da Caparica, o estuário do Tejo, a Figueira da Foz e áreas do Algarve — podem enfrentar riscos mais cedo do que o previsto, caso se confirme a subestimação.
Os autores sublinham que o estudo não reavalia a subida global do nível do mar nem contesta as projeções do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC). O objetivo foi analisar como os estudos existentes tratam dados altimétricos e qual nível do mar serviu de referência.
Na conferência de imprensa, os investigadores enfatizaram que não apontam falhas grosseiras, mas uma suposição recorrente sobre o nível do mar que se mostra menos precisa. As medições sugerem que, em várias regiões, o nível costeiro é significativamente mais alto do que o indicado pela prática comum dos últimos anos.
Jonathan Bamber, especialista em glaciologia, comentou que o trabalho não visa refutar previsões futuras, mas exigir a adoção de medições atuais mais precisas. O especialista destacou ainda que compreender as nuances das superfícies de referência é essencial para evitar erros entre a elevação costeira e a altura da superfície marítima.
As conclusões indicam a necessidade de padronizar metodologias, tornando os dados de referência mais fiéis à realidade. Em todo o mundo, a adaptação costeira pode exigir revisões nos planos municipais e investimentos em proteção costeira, especialmente em áreas de baixa altitude.
Entre na conversa da comunidade