- Cerca de 500 caixas com 35 mil documentos da história entre Índia e Portugal estão no Arquivo Histórico Ultramarino, à espera de recursos para serem tratados.
- A colecção abrange meados do século XVII até 1974-1975 e inclui correspondência oficial, registos alfandegários, mapas estatísticos e relatórios da administração colonial.
- O acesso atual baseia-se numa lista de datas gerais; para encontrar informações específicas é necessário vasculhar várias caixas, o que mostra a complexidade do acervo.
- A responsável Ana Canas defende que o tratamento exige uma equipa multidisciplinar e especialistas em várias línguas, para além de historiadores e arquivistas.
- Em comparação, o acervo do Brasil, com mais de duas mil caixas e cerca de trezentos mil documentos, já foi trabalho e digitalizado, com apoio do Plano de Recuperação e Resiliência; para a Índia, é necessária uma estratégia semelhante, possivelmente com parcerias internacionais.
O espólio único de cinco séculos sobre as relações entre Índia e Portugal permanece sem tratamento. Trata-se de cerca de 500 caixas, com 35 mil documentos, depositados no Arquivo Histórico Ultramarino (AHU) em Lisboa. O período coberto vai de meados do século XVII a 1974-1975.
A investigação é liderada pela pesquisadora Ana Canas, ligada ao Centro de História da ULisboa, que assumiu funções de direção do AHU. Ela explica que a série sobre a Índia ainda não foi processada devido à complexidade do acervo, existindo apenas uma lista de datas gerais por caixas.
O acervo envolve correspondência oficial, registos alfandegários, mapas estatísticos e relatórios da administração colonial. Os documentos estendem-se por cerca de 16 a 17 quilómetros lineares, representando uma parte importante da memória e da identidade históricas portuguesas.
Desafios e necessidades
A principal barreira não é falta de vontade, mas a complexidade do material. A equipa exigida seria multidisciplinar, com historiadores, arquivistas e especialistas em línguas como hindi, farsi e outras línguas regionais. Sem esses recursos, a pesquisa fica incompleta.
Para a Índia, a situação exige um projeto de grande envergadura. A investigadora sugere parcerias entre Portugal, a Índia e, possivelmente, financiamento europeu, para avançar com a catalogação, a tradução e a digitalização.
Ao contrário do acervo brasileiro, já tratado no PRR com apoio estatal e uma equipa de 120 investigadores, o material sobre a Índia permanece por trabalhar. O Brasil envolveu mais de 2 mil caixas e cerca de 300 mil documentos, com grande parte já digitalizada.
Apesar de o Brasil ter avançado, a Índia continua sem cronograma definido. A falta de recursos impede a montagem de uma equipa estável e de projetos de médio a longo prazo para decifrar o conteúdo.
As caixas com cinco séculos de história aguardam, assim, que sejam alocados meios adequados para transformar o acervo em fonte de conhecimento acessível. O AHU mantém o material à espera de um impulso que permita desvendar esse capítulo da presença portuguesa na Índia.
Entre na conversa da comunidade