- A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, no Seixal, está listada pela Europa Nostra entre os sete sítios europeus mais ameaçados, após tempestades recentes, mantendo-se como museu vivo de arqueologia industrial.
- O relatório realça a preservação “excecional” do património móvel in situ, incluindo máquina a vapor e caldeiras, e oito oficinas com maquinaria original.
- O espaço abrange 215 mil metros quadrados e alberga biodiversidade de 682 espécies desde 2020; o município cooperou com a Associação Vita Nativa desde 2021 para atividades de fauna e flora; é parte do Ecomuseu Municipal do Seixal desde 2001.
- A Europa Nostra aponta ameaças graves devido a décadas de envelhecimento, manutenção irregular, fissuras, infiltrações, vandalismo e crescimento descontrolado da vegetação; as recentes cheias agravaram as condições, prendendo máquinas centenárias.
- A fábrica iniciou produção em 1896, sofreu acidente fatal em 1897, encerrou entre 1998 e 2002 após novo sinistro, e pode receber uma subvenção de 10 mil euros do Banco Europeu de Investimento para apoio patrimonial.
A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, no Seixal, esteve em funcionamento durante mais de um século, resistindo a tempestades recentes, e figura agora entre os sete espaços patrimoniais mais ameaçados na lista Europa Nostra. O imóvel, classificado de interesse público desde 2012, é visto como um museu vivo da arqueologia industrial, com oficinas, máquinas a vapor e caldeiras ainda existentes.
Segundo o relatório anual da Europa Nostra, a fábrica preserva de forma excepcional o conjunto móvel integrado de interesse histórico, incluindo uma máquina a vapor e as respetivas caldeiras. O documento destaca oito oficinas dedicadas às fases da produção de pólvora, cada uma com maquinaria original preservada.
A área ocupada pela fábrica abrange 215 mil metros quadrados, onde foram identificadas 682 espécies desde 2020. Em 2021, o município do Seixal iniciou cooperação com a Associação Vita Nativa para promover atividades de contacto com fauna e flora no espaço, que tem estado aberto parcialmente ao público desde 2007 e integra o Ecomuseu Municipal do Seixal desde 2001.
Desafios de preservação
A Europa Nostra alerta para sérias ameaças associadas ao envelhecimento do material, à manutenção irregular e a infiltrações, fissuras e corrosão, agravadas por episódios de vandalismo e crescimento descontrolado da vegetação. As autoridades e instituições locais são apontadas como fundamentais no processo de preservação.
As condições críticas agravaram-se com as tempestades que abateram o país, inundando partes do recinto. A historiadora Graça Filipe, ligada à Câmara Municipal do Seixal, descreveu danos significativos às máquinas centenárias, incluindo as caldeiras e a máquina a vapor. A recuperação depende de uma intervenção estruturante.
A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços foi fundada em 1894 e iniciou produção em 1896. Um grave acidente no ano seguinte causou a morte de nove operários e levou à reconstrução. Entre 1898 e 1921 pertenceu à Companhia Africana de Pólvora, passando depois à Sociedade Africana de Pólvora, que encerrou a laboração no final do século XX.
A desactivação ocorreu entre 1998 e 2002, após um sinistro que provocou mortos e feridos. A via férrea de 1500 metros que ligava as oficinas também ficou marcada pela sua história. A construção é reconhecida pela sua importância simbólica para a comunidade local.
Além de ser um ícone de memória industrial, a lista Europa Nostra confere à fábrica elegibilidade para uma subvenção do Banco Europeu de Investimento no valor de 10 mil euros, destinada a projetos de preservação do património.
Ao lado de Vale de Milhaços aparecem na lista a Vila de Katapola e a Cidade Antiga de Minoa (Grécia), bem como outros projetos históricos na Europa, refletindo o interesse continuo na proteção de património industrial e cultural. Portugal já integrou a lista pela terceira vez desde 2013.
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