- O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) passa a gerir o Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI) em Silves, a partir de junho, afastando a equipa que liderou o programa há quase duas décadas.
- A mudança gerou críticas e a pergunta central: por que alterar um modelo que já apresentava resultados positivos, sem um plano público de transição?
- O ICNF afirma manter o empenho na recuperação do lince-ibérico e que a gestão passa a ser interna, com os mesmos requisitos, mas não apresenta um diagnóstico público que justifique a mudança.
- O novo Plano de Acção para a Conservação do Lince-ibérico em Portugal (PACLIP) 2026-2030, elaborado pelo ICNF, veio acompanhado de críticas quanto à falta de planeamento claro para a transição técnica, legal e operacional.
- O lince-ibérico já passou de provável extinção em Portugal para cerca de 3,5 centenas de animais em liberdade e, na Península Ibérica, supera 2.400; especialistas alertam para riscos caso a transição comprometa a continuidade do projeto.
O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) assume, a partir de 1 de Junho, a gestão do Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico (CNRLI) em Silves. A decisão envolve a substituição da equipa que dirigiu o centro há quase duas décadas, reconhecida por resultados notáveis no programa de conservação.
A mudança desencadeou críticas e dúvidas sobre o processo de transição, que foi apresentado sem um plano público de passagem de testemunho. Organizações ambientais, investigadores e a antiga equipa questionam a abordagem e o tempo necessário para assegurar continuidade técnica, legal e operacional.
O ICNF sustenta que o objectivo é manter a recuperação do lince-ibérico e que a nova equipa cumpre os mesmos requisitos exigidos em concursos anteriores. A instituição afirma ter contratado técnicos especializados desde o início do funcionamento do centro, assegurando a continuidade do trabalho.
A mudança de gestão
A equipa que coordenava a operação do CNRLI argumenta que faltou um diagnóstico público que justifique a alteração. Defende que o centro opera 24 horas por dia, com processos reprodutivos sensíveis e comunicação constante com parceiros espanhóis, o que requer uma transição bem estruturada.
Rodrigo Serra, antigo coordenador técnico, afirma que o problema não é a mudança de gestão, mas a ausência de uma transição segura. Alega que não houve comunicação formal com a equipa nem plano de contingência para a continuidade técnica e operacional.
Plano e governança
No terreno, a mudança coincide com o lançamento do Plano de Acção para a Conservação do Lince-ibérico em Portugal (PACLIP) 2026-2030, elaborado pelo ICNF em coordenação com entidades espanholas. O PACLIP introduz metas quantitativas, novas tecnologias de monitorização e respostas a comunidades locais.
Especialistas, incluindo Rodrigo Serra, temem que a mudança possa pôr em risco a continuidade do programa. Alertam para a necessidade de um plano de transição robusto e compatível com as exigências de uma operação altamente especializada.
Reacções e contexto
Organizações ambientais destacam os resultados do CNRLI ao longo de mais de 20 anos, com centenas de linces criados e reintroduzidos e um saldo de mais de 2400 linces na Península Ibérica. Questiona-se, ainda, como será assegurada a transferência de conhecimento entre equipas.
O Governo já abordou o tema no Parlamento, com o Livre a perguntar como o Ministério do Ambiente e Energia assegurará que a mudança não comprometa o sucesso do programa. O Maen promete responder através do ICNF.
O que está em jogo
O caso envolve não apenas a gestão administrativa do centro, mas a continuidade de um programa de conservação com resultados mensuráveis. A equipa afastada aponta riscos laborais e a possível perda de conhecimento acumulado ao longo de anos de operação.
O ICNF afirma manter o empenho pela recuperação do lince-ibérico, garantindo a continuidade do trabalho com a nova equipa. A explicação pública sobre as razões da mudança permanece incompleta, mantendo a tensão entre as partes envolvidas e a comunidade científica.
Olhos no futuro
Especialistas reiteram a necessidade de transparência na transição, de forma a sustentar a confiança pública e a continuidade técnica. Enquanto o PACLIP avança, o debate sobre governança, planeamento e proteção de espécies permanece em curso, sem desfecho definitivo à vista.
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