- O deserto do Sara envia colunas de poeira que percorrem milhares de quilómetros até à Europa, sobretudo entre fevereiro e junho, criando néblina amarelada e chuva de ferrugem.
- O Sara responde por mais de metade das emissões mundiais de poeira; com o aquecimento global, a quantidade de poeira pode aumentar entre quarenta e sessenta por cento até ao fim do século.
- Na Europa, a poeira pode degradar a qualidade do ar; em Espanha e Itália, estudos sugerem que pode ser responsável por até quatroenta e quatro por cento das mortes associadas a PM10.
- Medidas para mitigar passam por evitar perturbar solos no Sara, restauro da vegetação, manutenção de caudais e proteção da biocrost; na Europa, existem alertas precoces com até quinze dias de antecedência e ações como melhorar a ventilação e aumentar espaços verdes.
- A gestão do problema exige cooperação internacional e acordos vinculativos, já que a poeira não tem fronteiras.
Nos últimos anos, a poeira do Saara tornou-se um fenómeno cada vez mais relevante para a Europa. Odeserto, o maior do mundo, envia colunas de partículas que atravessam o Mediterrâneo, levando auroras laranjas e uma neblina amarelada que se depositam em Portugal, Espanha, França e Reino Unido. A “chuva de sangue” resultante deixa uma camada de pó visível em automóveis e janelas.
As emissões de poeira sariana não são apenas de natureza estética. Quando as partículas atingem a atmosfera, podem degradar a qualidade do ar e aumentar os níveis de PM10, com impactos na saúde respiratória e cardiovascular. Em estudos de modelação, Espanha e Itália apontam para até 44% das mortes associadas à poluição por PM10 ligadas à poeira sariana.
O papel do Saara na globalidade das emissões é relevante: o deserto contribui com mais de metade das poeiras atmosféricas do mundo. Em temperaturas elevadas e solos secos, as poeiras atingem altitudes elevadas e percorrem grandes distâncias, às vezes até ao norte da Europa, entre fevereiro e junho, e até ao mar do Norte e à Escandinávia.
A relação entre aquecimento global e poeira é complexa. O calor favorece a desertificação e eleva a probabilidade de maior emissão de poeira no futuro, com previsões de aumento entre 40% e 60% até ao fim do século, caso persista o aquecimento. Por outro lado, padrões de vento mais fracos e maior vegetação no Sahel têm atenuado algumas tempestades de areia nas últimas duas décadas.
Para além da saúde, a poeira sariana acarreta custos económicos. A deposição na neve dos Alpes reduz o albedo, acelerando o degelo, e pode diminuir a eficiência de painéis solares, além de reduzir a visibilidade de aviação e trânsito rodoviário.
A resposta exige ações transfronteiriças. No Saara, evitar perturbação de solos e práticas como sobrepastoreio e construção de barragens é crucial para reduzir emissões. Medidas de mitigação passam pelo restauro da vegetação, gestão de cursos de água e proteção da biocrostação do solo.
Na Europa, a preparação é prioritária. Sistemas de alerta precoce já permitem previsões com até 15 dias de antecedência, possibilitando alertas de saúde para grupos vulneráveis. Melhorias na ventilação, espaços verdes urbanos e comunicação pública ajudam a reduzir a exposição.
A gestão da poeira sariana exige cooperação internacional contínua. A natureza transfronteiriça do fenómeno obriga acordos vinculativos em áreas como gestão de bacias hidrográficas e respostas de saúde pública a nível europeu, para enfrentar um desafio que não respeita fronteiras.
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