- Um relatório da Changing Markets Foundation acusa a indústria da carne e dos lacticínios de ocultar a dimensão climática da sua atividade, através de parcerias e narrativas distorcidas.
- Em termos globais, o setor agroalimentar representa um terço das emissões de gases com efeito de estufa; na União Europeia, alimentos de origem animal respondem entre 81 e 86 por cento das emissões da produção alimentar, pese embora forneçam cerca de 21 por cento das calorias.
- O relatório cita o estudo EAT-Lancet, que indica que uma transição para dietas mais baseadas em vegetais poderia evitar cerca de 15 milhões de mortes por ano e reduzir 15 por cento das emissões agrícolas.
- Lobistas da carne são vistos a influenciar decisões internacionais, com críticas a que a FAO tenha uma tendência favorável ao setor pecuário e com ataques à credibilidade do relatório EAT-Lancet.
- Existem sinais de ação nacional, como o plano dinamarquês para alimentos à base de plantas, mas a COP30 também foi marcada por iniciativas de promoção da indústria e por controvérsias sobre o papel da pecuária na sustentabilidade.
O setor agroalimentar global é apontado como um dos principais emissores de gases com efeito de estufa, seguindo-se apenas à queima de combustíveis fósseis. Em vez de reduzir a pegada, a indústria da carne e dos lacticínios é acusada de influenciar decisores políticos para justificar o crescimento da pecuária. O relatório exclusivo da Euronews Green analisa estas alegações.
Segundo o documento, a indústria tem aproximado seus representantes de instâncias governamentais para moldar políticas climáticas. Em particular, são citadas ligações com a FAO e com organismos internacionais, que teriam contribuído para manter a narrativa de maior produção animal como solução, em detrimento de medidas de transição alimentar. O estudo recorre a exemplos de discursos e eventos para sustentar as afirmações.
Este texto investigativo, baseado em fontes públicas, sustenta ainda que a pegada de carbono da pecuária continua a crescer, impulsionada pela prática industrial e pela expansão do efetivo animal. Dados citados mencionam que 60% de todos os mamíferos do planeta são animais de criação, com apenas 4% selvagens e 36% humanos, o que reforçaria o peso da criação de gado no ambiente.
Lobistas da carne enfraquecem ação climática
O relatório Dangerous Distractions, da Changing Markets Foundation, sustenta que existem ligações próximas entre a indústria pecuária e decisões da ONU. No World Meat Congress, realizado em Mato Grosso, discursaram figuras associadas ao consumo de carne e à promoção de proteína animal, defendendo posições favoráveis ao setor perante autoridades internacionais.
Entre os oradores, destacam-se defensores do consumo de carne e de políticas de promoção da proteína animal. O documento acusa que a FAO é apresentada como aliada da indústria, com argumentos de que o mundo precisa de mais proteína animal, apesar das emissões associadas.
O relatório descreve ainda intervenções que não forneceram detalhes concretos sobre metas de sustentabilidade, embora se apresentem compromissos de melhoria por parte da indústria. As declarações citadas sugerem promessas, sem pormenores operacionais.
Ataques ao relatório EAT-Lancet
O documento também descreve críticas à análise EAT-Lancet, com intervenientes do World Meat Congress a questionarem a validade dos autores. Alegadas falas de que os autores não são especialistas merecem destaque, segundo o relatório.
De acordo com o material, a associada Carrie Ruxton afirmou que os autores não estariam qualificados para avaliar a sustentabilidade do sistema alimentar. Também se alega que Frédéric Leroy contesta a comissão científica, atribuindo conflitos de interesse a membros da comissão.
Leroy é descrito como crítico da proposta de dietas com maior inclusão de proteína vegetal e defensor de dietas com maior participação animal, contrariando a ideia de redução de proteína animal prevista pela dieta de saúde planetária.
COP30: monitorização de narrativas
O World Meat Congress ocorreu uma semana antes da COP30 e contou com a presença de mais de 300 lobistas do setor agrícola industrial. A Changing Markets denuncia a exibição de um documentário financiado pela indústria nas zonas oficiais da COP, intitulado World Without Cows, considerado uma ferramenta de promoção de narrativas que minimizam impactos da pecuária.
A produção deste filme ficou a cargo da Alltech, empresa com receitas anuais equivalentes a cerca de 2,6 mil milhões de dólares. O relatório aponta que a Alltech criou a subsidiária Planet of Plenty LLC para promover estas narrativas junto de públicos e instituições.
Apesar da presença de discussões sobre redução de emissões, o relatório aponta que as conversas sobre alterações na alimentação foram raras e esporádicas. Em preparação para a COP30, a Changing Markets identificou narrativas que associavam a carne a bem-estar e saúde, promovidas por influenciadores.
Outra investigação menciona contratação de communicadores por empresas do agronegócio para legitimar a atuação do setor junto de jornalistas, médicos e modelos, com o objetivo de melhorar a imagem pública.
Mesmo com estes sinais de lobbying, o relatório destaca avanços nacionais. Dinamarca lançou, em 2023, um Plano de Ação para Alimentos à Base de Plantas, visando reduzir o consumo de carne e ampliar dietas vegetais. A FAO, no entanto, não comentou oficialmente o assunto.
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