- Estudos internacionais, reforçados por dois artigos na revista Biological Reviews com participação portuguesa, indicam que as invasões biológicas se aceleram e que a resposta política é insuficiente; na Península Ibérica já haviam 1.273 espécies não nativas identificadas, com 616 em Portugal.
- As tempestades de início de 2026 potenciarem a dispersão de espécies invasoras, com cheias a transportar sementes, fragmentos e pequenos organismos para novos habitats, aumentando o risco de colonização.
- Exemplos em Portugal: jacinto‑de‑água no Tejo, mexilhão‑zebra nas albufeiras, lagostim‑vermelho no Baixo Mondego e no Vale do Tejo, acácia‑de‑espigas a dominar dunas e elevar custos de controlo.
- Em contexto económico e social, há custos significativos de remoção e controlo, impactos na agricultura, pesca e água, bem como riscos para a saúde pública (ex.: mosquito Aedes albopictus).
- A gestão falha‑se evidencia na falta de planos eficazes, atrasos no cumprimento de obrigações europeias e necessidade de monitorização, prevenção e investimento estável para enfrentar o problema.
A investigação internacional aponta para uma aceleração das invasões biológicas e para impactos profundos nos ecossistemas, com Portugal a enfrentar consequências das tempestades recentes. Dois artigos na Biological Reviews, com participação de Ronaldo Sousa, da Universidade do Minho, reforçam a necessidade de monitorização rigorosa e resposta célere.
Em Portugal, o fenómeno já figura entre os principais focos de preocupação ambiental. Dados de 2025 indicam 616 espécies exóticas no território, com a Península Ibérica destacada como ponto crítico. Lisboa e Coimbra aparecem entre as cidades mais afetadas, segundo a Rede ARNET, da qual Sousa faz parte.
Em termos globais, a dispersão de espécies não nativas ocorre a várias escalas, desde movimentos locais até grandes transferências associadas ao comércio. A literatura científica descreve os mecanismos de introdução e os impactos ecológicos, económicos e sociais, bem como as condições que favorecem a rápida disseminação.
Impactos ecológicos e económicos
As espécies invasoras provocam alterações nas interações entre espécies, competem por recursos e podem transmitir doenças. Em Portugal, casos como o jacinto‑de‑água no Tejo exigem remoção constante e custos elevados. O mexilhão‑zebra já ameaça infraestruturas hidráulicas com custos estimados superiores a dois milhões de euros por ano.
A costa portuguesa também enfrenta problemas associados a plantas invasoras, como a acácia‑de‑espigas, cuja gestão envolve despesas significativas e eleva o risco de incêndio. A pandemia de impactos estende-se a setores como agricultura, pesca e floresta, com efeitos já sentidos nos serviços ecossistémicos.
Tempestades e dispersão
As cheias registradas no início de 2026 criaram condições propícias para a dispersão de espécies aliadas a habitats alagados. Fragmentos de plantas aquáticas podem viajar vastas distâncias, abrindo novas áreas para colonização. O jacinto‑de‑água é citado como exemplo de espécie que pode expandir a sua área de ocorrência devido às cheias.
Além do jacinto, o lagostim‑vermelho da Luisiana já se beneficia de zonas inundadas, tornando-se uma ameaça para habitats húmidos e áreas agrícolas. Em alguns casos, a disseminação de larvas de espécies como o mexilhão‑zebra aumenta o risco de entrada em sistemas de captação de água e rega.
Gestão e políticas
Apesar da forte atividade de investigação, Portugal continua a enfrentar lacunas na gestão pública desta ameaça. Há atrasos na implementação de planos europeus e na prevenção de vias de introdução de espécies invasoras. Em várias zonas, a expansão de espécies invasoras persiste com a necessidade de intervenções contínuas e financiamento estável.
O problema é evidenciado em áreas protegidas, como o Parque Nacional da Peneda‑Gerês, e em estuários como Minho e Lima, onde alterações na comunidade biológica afetam atividades tradicionais de pesca e a resiliência dos ecossistemas. A gestão exige deteção precoce, monitorização e cooperação internacional.
Rumo a uma resposta firme
Especialistas reiteram que a prevenção continua a ser a estratégia mais eficaz e sustentável, exigindo financiamento estável, planos concretos e adesão a obrigações europeias. Sem investimento, a capacidade de resposta permanece limitada, segundo Ronaldo Sousa.
Os estudos analisados deixam claro que as invasões biológicas devem intensificar‑se nas próximas décadas devido à conjugação de temperatura, conectividade global e perturbações ambientais. A comunidade científica alerta para uma escalada do problema, com necessidade de ações rápidas e coordenadas.
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