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Portugal celebra 50 anos de democracia em Veneza

Cinquenta anos após a estreia de Portugal na Bienal de Veneza, a interpelção política da arte persiste, elevando debates institucionais e decisões públicas

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  • A Bienal de Veneza, que em 1976 já se assumia como agente político, tem hoje o seu impulso de diálogo com o sofrimento enquadrado no espaço artístico.
  • Portugal participou pela primeira vez em democracia em 1976, ocupando o pavilhão cedido pela Finlândia, numa mostra que denunciava ditaduras e promovia a cultura democrática.
  • Anos depois, figuras como Ana Hatherly e Alberto Carneiro deram corpo a essa leitura de transformação through arte, com obras que ligavam política, corpo e natureza.
  • Em 2026, o trabalho RedSkyFalls, de Alexandre Estrela, recorre a sensores e organismos luminosos para sugerir presságios ecológicos e terremotos, mantendo o envolvimento político da exposição.
  • A edição atual envolve causa de controvérsia e requer mudanças institucionais: a curadora morreu em 2025, houve pedidos de exclusão de regimes no programa, o júri demitiu-se e a Fundação anunciou atribuição de dois Leões de Ouro por votação do público.

A Bienal de Veneza, que em 1976 se assumiu como agente político, é hoje interpelada pelo mesmo impulso: o sofrimento não é matéria artística neutra. Portugal participou pela primeira vez em democracia na Bienal de Veneza em 1976, num gesto de reconhecimento de uma democracia emergente.

Dois anos após o 25 de Abril, Portugal instalou-se no pavilhão de Alvar Aalto, cedido pela Finlândia, numa relação que reflecte uma cultura democrática e antifascista. Entre 1974 e 1977, a direção de Carlo Ripa di Meana reformou a instituição, denunciando ditaduras, celebrando democracias e maintenance de um boicote ao apartheid.

Ana Hatherly e Alberto Carneiro ajudaram a definir essa leitura da exposição, com obras que ligam corpo, política e paisagem. Hatherly filmou Lisboa em ebulição em Revolução (1975) e Carneiro apresentou rituais que relationshipam estética, natureza e gesto, ambos defendendo que o mundo pode ser transformado pela arte.

Cinquenta anos depois, Alexandre Estrela apresenta RedSkyFalls, uma instalação que utiliza sensores e organismos luminosos para sinalizar tremores. O trabalho desloca a inscrição direta para um sinal difuso, sugerindo uma leitura menos direta do político, agora ambiental e sistémico.

A curadora desta edição, Koyo Kouoh, faleceu em 2025, deixando um legado que enfatiza ouvir os tons menores em vez de apenas espectáculos de horror. O corpo da exposição principal passou a incluir um apelo dos artistas para excluir regimes que cometam crimes de guerra, citando Israel, Rússia e Estados Unidos.

Entre assinaturas públicas e receios de represálias, aumentaram os pedidos à Fundação da Bienal para a clarificação de posições. Em resposta, o júri demitiu-se em bloco e a Fundação anunciou que dois Leões de Ouro seriam atribuídos por votação do público, em virtude de regras de inclusão e igualdade.

Este momento marca uma passagem de uma história de participação fragmentada para uma reflexão sobre arquivo e continuidade. Em 2022, artistas russos retiraram-se do Pavilhão da Rússia, numa posição de protesto contra a invasão da Ucrânia, abrindo espaço para reavaliar a relação entre arte, regimes e direitos humanos.

A Bienal de Veneza, que já se viu como força política, volta a ser convocada pela urgência de questões sociais. Em Portugal, persiste a necessidade de tornar o arquivo histórico mais acessível e de apoiar práticas artísticas geradoras de memória e resistência, especialmente em contextos de repressão.

O panorama atual sugere que a Bienal continua a ser palco de tensões entre representação nacional, ética pública e liberdade de expressão. A corrente de participação portuguesa mantém-se em desafio: alinhar memória, arquivo e criação num espaço internacional onde a política e a arte se cruzam.

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