- O conflito entre Estados Unidos, Israel e o Irão está a agravar a crise de água no Irão, considerado o país mais carente de água da região e exposto às alterações climáticas.
- Teerão chegou a quase ter o “Dia Zero” da água no final do ano passado, com reservatórios da cidade de cerca de nove milhões de habitantes a secar; o presidente alertou que haveria evacuação se não chover.
- Imagens de canais de drenagem a arder, possivelmente após ataques aéreos a depósitos de petróleo, ilustram o estado crítico do abastecimento, ainda que não tenham sido verificadas de forma independente pela Bloomberg.
- A pior seca desde 2020, associada ao aquecimento global e à má gestão hídrica, agravada por sanções que dificultam a manutenção de infraestruturas, aumenta o stress hídrico no país.
- A rede de água iraniana depende de infraestruturas centralizadas, com contratos ligados a aliados do Estado; a dessalinização representa pouco da água potável, cerca de três por cento, e há protestos públicos devido à escassez.
O conflito entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão ocorre numa região já marcada pela escassez de água. Relatos de redes sociais mostram canais de drenagem em Teerão a arder, em imagens que parecem sugerir ataques a infraestruturas próximas a depósitos de petróleo. A Bloomberg não confirmou de forma independente.
As imagens intensificam o retrato de um sistema de abastecimento sob pressão extrema. Teerão chegou perto do que foi apelidado de Dia Zero da água, no fim do ano passado, quando os reservatórios que abastecem a cidade de cerca de nove milhões ficaram secos. O Presidente Masoud Pezeshkian já advertiu sobre evacuações em caso de falha prolongada de chuva.
O Irão enfrenta, há anos, seca severa e variações climáticas extremas, agravadas por políticas de gestão hídrica, sanções e pressão económica. Especialistas condicionam o agravamento da crise ao aquecimento global, que intensifica a volatilidade climática na região.
A pior seca de sempre
Desde 2020 registam-se períodos de chuva muito aquosa escassa, com anos de seca 10 vezes mais prováveis face à era pré-industrial, segundo o World Weather Attribution. O aquecimento global aumenta a severidade de eventos climáticos extremos, elevando o stress hídrico no Irão.
Segundo analistas, a combinação de má gestão de água, agricultura intensiva e sanções limita a importação de peças necessárias para infraestruturas hídricas. Instituições como o Instituto IHE Delft sublinham que os impactos da crise ainda se intensificam, independentemente do desfecho do conflito.
Vulnerabilidade estratégica
Profissionais de segurança hídrica destacam que o Irão depende de sistemas centralizados de água, com grande capacidade de dessalinização, mas estes funcionam apenas parcialmente. Em março ocorreu um ataque a uma central de dessalinização na ilha de Qeshm, seguido de retaliação iraniana a infraestruturas no Bahrein.
Relatórios indicam que o Irão obtém apenas 3% da água potável via dessalinização, muito abaixo de outros países da região, onde a dessalinização cobre parcela significativa da demanda. A rede de barragens e reservatórios, construída ao longo de décadas, mostra sinais de desgaste e funcionamento aquém da capacidade.
O que se sabe sobre as causas
A chamada “máfia da água” — contratos vinculados a aliados do Estado e do militar — é citada como fator de gestão descoordenada e de investimentos que não acompanharam a procura real. Sanções internacionais reduziram a concorrência, gerando escolhas de projeto com impactos de longo prazo na oferta de água.
Protestos relacionados com a água já ocorreram em regiões como Kuzestao e Isfahan, onde a escassez se tornou tema de contestação popular. Especialistas acrescentam que a crise hídrica alimenta tensões sociais e políticas no país, independentemente do desenrolar bélico regional.
Perspectivas e medidas
A água destinase sobretudo para a agricultura — cerca de 90% —, com impactos sobre aquíferos e solos. Agricultores investem em culturas menos adequadas às condições locais, o que agrava a pressão sobre os recursos hídricos. Observadores alertam que a adaptação requer planejamento e financiamento, ainda mais num contexto de instabilidade política.
Analistas destacam que a situação atual pode prever medidas de curto prazo para mitigar a escassez, mas que o longo prazo exige reformas estruturais, investimento tecnológico e cooperação regional para a gestão hídrica, especialmente diante de uma procura crescente e de mudanças climáticas.
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