A vida de quem trabalha e estuda em Portugal é marcada por rotinas intensas, noites em claro e decisões diárias que envolvem família, estudo e emprego. O fenómeno, já presente, ganha cada vez mais dimensão no ensino superior.
Em várias histórias, pais jovens, imigrantes e estudantes internacionais somam horários, tarefas e despesas. O cansaço é constante, com pouco descanso entre o trabalho, as aulas e as responsabilidades familiares.
Diogo Bessa, 28 anos, vive esse ciclo no Porto. Trabalhador a tempo inteiro e no terceiro ano de licenciatura, concilia paternidade, estudos e emprego com jornadas longas e horários ajustados pela instituição. O cansaço domina as noites e os fins de semana.
Patrícia Marques, 24 anos, também mistura trabalho, estudo e maternidade. O ritmo é ditado pela necessidade financeira, pela agenda da família e pela exigência académica, o que resulta em noites em claro para conseguir concluir tarefas.
Equilibrar trabalho e estudo é tendência crescente
No ano lectivo 2023/24, mais de 41 mil alunos trabalhavam em simultâneo, representando 9,2% do total, o valor mais elevado da última década. A procura por apoio financeiro e académico aumenta, refletindo pressão económica.
Apesar do crescimento, Portugal fica aquém da média europeia, onde cerca de 12% dos jovens estudantes trabalham e estudam. A União Europeia regista valores acima de 25%, revelando diferenças na oferta de apoio.
O custo de vida para estudantes subiu, com despesas mensais que ultrapassam os 900 euros em cidades universitárias. O valor aproxima-se do salário mínimo nacional, aumentando a tensão financeira.
No mercado de trabalho, a instabilidade persiste, com quase 29% de contratos precários. Muitos trabalhadores são a termo ou independentes, o que agrava a pressão sobre quem estuda.
Ser pai, trabalhador e estudante
Diogo Bessa já destacava que o estatuto facilita algumas situações, mas traz limitações. A época de exames resulta em ausências que dificultam progressão na carreira. O bar onde estuda encerra às oito, o que complica o after-hours com as aulas até às nove e meia.
A vida quotidiana envolve uma organização familiar contínua. O objetivo é terminar a licenciatura, reconhecendo que o esforço pode comprometer o crescimento profissional a curto prazo.
Patrícia Marques descreve a falta de tempo como uma regra. Mesmo sendo professora, sinaliza que a maternidade não foi plenamente considerada pela instituição durante o mestrado, apontando para necessidades de maior empatia e flexibilidade docente.
Estudar quando o descanso não existe
Patrícia descreve noites em claro para cumprir compromissos, com a gestão de tempo a exigir planejamento minucioso. A fadiga e o desgaste mental surgem como consequências repetidas, refletindo lacunas no apoio institucional.
A estudante aponta para falta de apoio real por parte de alguns docentes e a necessidade de políticas mais sensíveis à realidade de trabalhadoras-estudantes, incluindo horários mais flexíveis.
Patrícia defende docentes mais atentos à vida de quem equilibra família, trabalho e estudo, não apenas pela meritocracia académica, mas pela compreensão prática das circunstâncias.
A tripla exigência de trabalhar, estudar e imigrar
Para imigrantes, o desafio é triplo: suportar o trabalho, o estudo e dificuldades adicionais sem rede familiar próxima. O objetivo é melhorar o futuro, mas o custo humano é elevado.
Cisa, 23 anos, chegou há cerca de quatro anos e trabalha para custear os estudos, ajudando também a família no país de origem. O rendimento paralelo pode beneficiar, mas o descanso é quase inexistente.
Lénio, 27 anos, afirma que o ritmo em Portugal é mais exigente que em Angola, e que algumas semanas chegam a ter apenas três a quatro horas de sono. A experiência fortalece a dedicação, mas aumenta o cansaço.
Tchissola, 24 anos, enfrenta instabilidade familiar por várias responsabilidades, incluindo uma irmã com epilepsia. A vida académica, profissional e familiar convive com incertezas, o que pode levar a faltas.
Psicologia e ensino superior: onde o sistema falha
A sobrecarga é um problema estrutural do ensino superior, não apenas uma gestão de tempo. A psychóloga Ana Claúdia Barbosa aponta stress persistente, burnout e dificuldades de foco entre trabalhadores-estudantes.
Existem sinais de exaustão: queda de motivação, alterações de sono e cansaço contínuo. Apesar de existir apoio psicológico, persiste uma lacuna de respostas eficazes em várias universidades.
A especialista defende modelos de avaliação mais flexíveis, horários adaptados e ensino híbrido. Também sublinha a necessidade de reduzir burocracias, ampliar serviços de apoio psicológico e oferecer programas de gestão de stress.
Conclui que o custo de vida e a falta de apoios financeiros afetam a saúde mental de muitos estudantes. Sem políticas robustas, o número de trabalhadores-estudantes tende a manter-se elevado.
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