A dor que não se mede com instrumentos clínicos pode condicionar a vida de muitas mulheres, segundo uma análise de especialistas. A situação pode traduzir-se em doença sem diagnóstico claro, gerando estigma e impacto emocional prolongado.
A psicanalista Patrícia Câmara, presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, explica que a dor muitas vezes permanece invisível aos exames. O corpo, ao longo de anos, pode tornar-se um espaço de regulação excessiva e de continuidade vital, mesmo sem marcação física.
Para a especialista, a identidade, o lugar relacional e a temporalidade vivida sofrem alterações durante fases como adolescência, gravidez, pós-parto, infertilidade e perimenopausa. Observa-se, nomeadamente, um aumento de queixas somáticas em raparigas e de sintomas na perimenopausa.
Patrícia Câmara ressalva que o corpo não mente, mas pode organizar o sofrimento de formas diversas. A dor sem marcador claro tende a ser desvalorizada, o que dificultou o reconhecimento de condições como endometriose ou fibromialgia, com consequências no sofrimento vivido pelas mulheres.
A historiadora do corpo também indica uma dupla tendência: o corpo é observado de perto, porém, muitas vezes não é levado a sério. Esta desvalorização pode reforçar dúvidas sobre a legitimidade da dor vivida pelas mulheres.
Ao abordar o tema, pede-se criar condições para que o sofrimento exista sem necessidade de prova de legitimidade. Quando não reconhecido, o sofrimento pode intensificar-se e instalar-se ainda mais no corpo.
Como reconhecer sinais de risco
Entre os sinais frequentes de somatização estão dor persistente, fadiga, problemas gastrointestinais, insónia e queixas difusas. Em mulheres, destacam-se dores pélvicas, menstruais e musculoesqueléticas, bem como síndromes dolorosas crónicas como a fibromialgia.
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