- O termo “merdificação” da Internet descreve a degradação progressiva da qualidade das plataformas à medida que passam da atração de utilizadores para a monetização.
- O ciclo tem três fases: oferecer valor inicial aos utilizadores, depois priorizar a monetização e, por fim, extrair valor de todo o ecossistema, degradando a experiência.
- Exemplos citados: Google com páginas saturadas de links de afiliados e conteúdo de menor qualidade; Amazon com resultados caóticos e listagens impulsionadas por publicidade; TikTok, que privilegia conteúdos curtos para manter a atenção; X (antigo Twitter) com alterações de verificação e aumento de spam.
- Em Portugal, a Deco levou ao Governo preocupações sobre a queda da qualidade dos serviços e pediu defesa do direito dos consumidores à qualidade.
- O fenómeno pode abrir espaço a formatos mais locais e humanos, como newsletters e fóruns especializados, mas a relação de confiança com as plataformas pode deteriorar-se.
A ideia de que a Internet está a “merdificar” foi ganhando espaço no debate digital. O termo descreve um fenómeno observado por utilizadores: plataformas que, com o tempo, perdem qualidade de experiência. A explicação baseia-se num ciclo de vida típico das plataformas.
Segundo a perspetiva de Cory Doctorow, publicado recentemente, as plataformas passam por fases: atrair utilizadores com valor e utilidade, seguir-se a monetização via publicidade e parcerias, e, por fim, extrair valor de todos os lados, degradando a experiência de utilizadores, criadores e anunciantes.
Este debate chega a Portugal, com a Deco a apresentar ao Governo preocupações sobre a queda na qualidade de serviços digitais. O objetivo é impedir o agravamento da degradação e afirmar o direito dos consumidores a um serviço estável.
Google, Amazon e redes sociais aparecem entre os exemplos mais citados. Estudos alemães de 2024 indicaram que algumas páginas bem posicionadas recorriam a muitos links de afiliados, com textos de qualidade inferior para agradar algoritmos.
No caso das plataformas de e‑commerce, a Amazon é apontada por consumidores como cada vez mais caótica, com resultados de pesquisa saturados por produtos semelhantes e publicidade interna a influenciar listagens.
Nas redes sociais, o TikTok é citado como modelo de sucesso do conteúdo algorítmico curto, mas o feed tende a privilegiar retenção através de conteúdos estimulantes, nem sempre com relevância informativa variada.
O X (antigo Twitter) é outro exemplo notório de mudanças: verificação de contas, aumento de spam e alterações no algoritmo alteraram a experiência de uso, levando utilizadores e jornalistas a migrar para outras plataformas.
A lógica subjacente é a economia da atenção: maior crescimento, mais utilizadores e mais tempo de navegador equivalem a maior monetização. Quando essa prioridade se impõe, a experiência tende a ficar em segundo plano.
Apesar do paradoxo, a Internet continua a oferecer imensa quantidade de conteúdo e plataformas, mas muitos sentem dificuldade em encontrar informação útil ou conversas verdadeiras entre tanto conteúdo.
Por outro lado, a saturação pode estimular reacções como o interesse em espaços mais pequenos e próximos: newsletters, fóruns especializados ou plataformas descentralizadas. A “merdificação” pode, assim, abrir espaço para alternativas mais humanas.
No equilíbrio do ecossistema digital, a confiança do utilizador funciona como um limite invisível. Quando se deteriora, nenhuma otimização algorítmica compensa totalmente a perceção de queda de qualidade.
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