- Trabalhadores migrantes permaneceram no Dubai durante quatro semanas de ataques, pois não tinham meios para fugir ou abandonar o trabalho.
- Fragmentos de ataque iraniano mataram civis, incluindo Muzaffar Ali Ghulam, motorista paquistanês de 27 anos, que trabalhava 12 horas por dia e enviava a maior parte do salário para a família.
- A guerra elevou a visibilidade da precariedade desses trabalhadores, cuja vida e rendimento estão mais expostos do que os residentes mais abastados.
- O comércio local, incluindo mercados de peixe e lojas de especiarias, ficou mais difícil, com aumentos de preços e quedas na afluência turística e de clientes.
- Mesmo diante do temor, muitos empregadores e trabalhadores reconhecem Dubai como casa, expressando preocupação com o futuro da cidade e com o sustento das famílias no imediato.
Os trabalhadores migrantes sustentam o Dubai, enquanto muitos residentes abastados fogem durante quatro semanas de ataques. Os migrantes permaneceram, sem recursos para abandonar o país ou parar de trabalhar. O conflito envolve Irão, EAU, EUA e Israel, com impactos diretos em pessoas que vivem e trabalham na cidade.
Muzaffar Ali Ghulam, chegado há quatro anos, trabalhava 12 horas diárias como motorista. Enviava grande parte do salário à mulher e aos três filhos no Paquistão. Quando o Irão lançou mísseis e drones contra os Emirados, não houve decisão de sair, segundo o primo Masood, que falou sob anonimato parcial.
Fragmentos de ataques atingiram o carro de Ghulam a 7 de Março, segundo as autoridades dos Emirados, matando-o no acto. Masood disse que a família ainda luta pela perda, e que, em pleno desespero, o luto convive com a esperança de que Ghulam ainda esteja presente na memória da família.
A guerra já deixou mais de uma dúzia de civis mortos na região do Golfo desde o início da escalada entre EUA, Israel e Irão, no final de fevereiro. Trabalhadores migrantes, que tornaram Dubai num centro global, são o grupo com maior exposição aos riscos.
Impacto económico e social
Além da mortalidade, a guerra intensificou a precariedade dos migrantes. Entre a população de quatro milhões, os residentes mais abastados procuraram abrigos, enquanto muitos migrantes não conseguiram abandonar as áreas de trabalho, mantendo rendimentos essencialmente baixos para sustentar familiares distantes.
Um técnico de manutenção do Uganda relatou ter visto um drone no mercado onde trabalha, e um electricista do Gana temeu pela vida e pela estabilidade financeira da família no país de origem. Um empregado egípcio mostrou-se confiante de que Dubai continuará a proteger os residentes e a manter o comércio a funcionar.
Perspetivas e receios
No Al Lisaili, Masood descreveu o sonho de Ghulam para os filhos: a filha mais velha quer ser médica. O momento é de incerteza para muitos migrantes, enquanto continuam os alertas de mísseis e as interrupções económicas. Os relatos destacam a dualidade entre a permanência no local de trabalho e a preocupação com o regresso aos países de origem.
No Dubai Creek, comerciantes de especiarias de várias nacionalidades afirmaram manter negócios, apesar da redução de turistas. O preço do peixe duplicou desde o início do conflito, afectando a renda de famílias paquistanesas, afegãs e de outras origens que dependem do comércio local.
Realidades diárias dos trabalhadores
No bairro industrial de Al Quoz, a vida continua entre estendais, lojas simples e uma clientela diversificada. Um electricista ganhando cerca de 500 euros mensais envia metade para a família, enquanto o receio persiste. A maioria dos migrantes descreve uma situação de sobrevivência diária.
No setor de restauração da zona costeira de Jumeirah, muitos bares recuaram na procura de clientes, com alguns a manterem salários para evitar despedimentos. A frequência de visitantes é inferior à normal, uma consequência direta da instabilidade regional.
Olhar para o futuro
Francamente, alguns residentes reconhecem que o Dubai permanece como um polo de oportunidades, mas temem pelo impacto prolongado do conflito. Profissionais de várias origens reiteram que a cidade representa um local de aspirações, porém a incerteza é evidente entre quem sustenta famílias em casa.
O Daily contextualiza que, apesar da tensão, o governo local tem reiterado medidas de proteção e manutenção de serviços públicos e infraestrutura. Migrantes expressam gratidão pela estabilidade oferecida por Dubai, ao mesmo tempo que vivem com o peso da distância de casa.
Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
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