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Quando os pais davam boleias a estranhos: uma realidade de outrora

Recorda as boleias da infância num Mini azul, memória de uma confiança colectiva que hoje contrasta com o receio de aceitar estranhos

Todos os anos havia também a peregrinação à Feira Popular de Lisboa
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  • Na década de oitenta, a narradora recorda viagens de carro em um Mini azul que cabia quatro filhos, pai, mãe, avó e, por vezes, um desconhecido à beira da estrada.
  • As viagens, da Serra da Estrela para Miranda do Corvo, eram longas e cheias de peripécias, com paragens por enjoo, para lavar roupas numa fonte e sem telemóveis, com rádio e cassete de Roberto Carlos a marcar o ritmo.
  • Havia empatia e convivência familiar: afastavam-se receios para acolher o desconhecido, e cada viagem trazia momentos de convívio, música, histórias de Angola e brincadeiras de infância no colo dos pais e da avó.
  • As viagens incluíam visitas a Fátima e à Feira Popular de Lisboa, com tensões logísticas entre a pensão barata e a animação das atrações da feira.
  • A autora questiona hoje o desaparecimento daquela confiança em estranhos, reflectindo sobre a mudança da sociedade e lembrando a avó que dizia: “Quem está com Deus, nada de mal lhe acontecerá.”

O texto revisita a infância da autora nos anos 80, quando o carro da família era um Mini azul. Nele cabiam quatro filhos, os pais, a avó materna e, por vezes, um desconhecido a pedir boleia à beira da estrada. A viagem era uma aventura entre serras, montes e percursos imprevisíveis.

As viagens não tinham telemóvel nem tecnologia moderna. O rádio ficava ligado, às vezes guardado debaixo do assento, e o conjunto de músicas incluía Roberto Carlos. A família carregava uma dinâmica de afeto, com o desconhecido acolhido pela avó e o carro a servir de abrigo móvel.

Ao longo das jornadas, havia paragens que marcavam cada memória: visitas a familiares em Miranda do Corvo, almoços simples e o convívio com histórias de Angola. Cada regresso envolvia mapas e rotas alternativas traçadas pelo pai, desafiando o cansaço dos miúdos.

Mudança de tempo e de confiança nas estradas

Com o passar das décadas, o fenómeno das boleias tornou-se menos comum e mais desaconselhado. A autora aponta que a curiosidade pela estrada contrasta com o receio atual de viajar com desconhecidos, refletindo mudanças culturais e de segurança.

Hoje, é comum observar jovens com mochilas a pedir boleia de forma distante, enquanto os pais e familiares mantêm a cautela. O texto sugere que a confiança coletiva de antigamente dava lugar a uma maior vigilância e prudência nas estradas de Portugal.

O relato mantém um tom nostálgico, mas apresenta uma leitura objetiva sobre como as vivências de família moldaram uma visão otimista do mundo. O tema central permanece a ligação entre memória, convivência e transformação social ao longo do tempo.

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