- No Festival de Cannes, mais de 600 profissionais do cinema assinaram uma petição contra a influência do empresário Vincent Bolloré na indústria francesa, lançada pelo coletivo “Zapper Bolloré”.
- O diretor-executivo do Canal+, Maxime Saada ameaçou cessar a colaboração com os signatários da petição e afirmou que não quer voltar a trabalhar com eles.
- A petição já tem quase 3.500 assinaturas e acusa Bolloré de promover ideias de extrema-direita através do império mediático que controla o Canal+.
- Há debate sobre se as ameaças de boicote configuram violação da liberdade de expressão; juristas dizem que poderia haver discriminação no local de trabalho, dependendo das circunstâncias.
- O Canal+ tem obrigações legais de pluralismo e de investir em cinema francês; entidades como Arcom e SRF apelaram ao diálogo e propuseram mediação entre as partes.
França vive um momento de tensão na indústria do cinema, com uma petição de mais de 600 profissionais ligada ao Festival de Cannes a questionar o peso de Vincent Bolloré no setor. O pedido ganhou força à distância de poucos dias do festival, que decorreu entre 12 e 23 de maio.
A iniciativa, lançada pelo coletivo Zapper Bolloré, angariou quase 3.500 assinaturas. Assinam nomes como Adèle Haenel, Juliette Binoche e figuras internacionais como Javier Bardem e Ken Loach. A peça aponta a influência da extrema-direita no cinema francês e cita Bolloré, sócio majoritário da Canal+.
O grupo Canal+ tem em curso movimentos estratégicos no mercado de cinema, incluindo a aquisição de 34% da cadeia UGC anunciada em 2025, com perspetiva de avançar para uma aquisição de conjunto em 2028. O texto argumenta que deixar o cinema nas mãos de uma figura conservadora pode conduzir a uma homogeneização da produção.
Canal+ reage e ameaça desligar assinantes
Em Cannes, o CEO do Canal+, Maxime Saada, afirmou que a empresa deveria cessar a colaboração com os signatários da petição. A declaração foi feita num evento de produtores, gerando controvérsia entre profissionais e observadores sobre liberdade de expressão e boicote.
A Euronews contactou o Canal+ para confirmar as intenções, mas não houve comentário oficial. Observadores entendem que as palavras podem configurar uma ameaça de boicote, ainda que não haja confirmação de medidas legais ou operacionais.
Deputados e artistas defenderam a liberdade de expressão e a necessidade de proteger a diversidade criativa na indústria. Entre críticas à concentração de poder, há pedidos para que o debate decorra dentro de vias institucionais e legais.
A avocação de medidas legais traz ainda discussão sobre como o direito do trabalho se aplica a assinaturas de petições. Especialistas sublinham que boicotes com base em opiniões políticas podem enfrentar obstáculos jurídicos, sobretudo se não houver discriminação direta.
Perspectivas legais e de regulação
Especialistas lembram que o Canal+ está sujeito a obrigações legais para manter o pluralismo e apoiar obras em língua francesa, bem como parcerias com produtores independentes. A legislação francesa de 1986 é citada como marco para garantir diversidade de pensamento.
O regulador audiovisual Arcom pediu diálogo entre as partes para arrefecer a tensão. A SRF, associando cerca de 500 cineastas, sugeriu uma mediação para restabelecer a confiança entre signatários e equipas da Canal+. O desfecho ainda depende de negociações e de decisões institucionais.
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