- Estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, publicado na revista BMC Public Health, conclui que maus‑tratos a pessoas com 65 anos ou mais escapam ao radar dos centros de saúde em várias regiões de Portugal.
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- Embora 94% dos médicos concordem que é responsabilidade detetar maus‑tratos, dois terços não desconfiaram de qualquer caso nos 12 meses anteriores.
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- Entre os médicos que suspeitaram de maus‑tratos (32%), menos da metade reportou às autoridades competentes e 16,9% optaram por não denunciar.
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- Apenas 36,5% dos médicos de família sabiam como reportar casos suspeitos, sendo apontados falta de protocolos e de tempo na consulta como entraves.
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- Recomendam‑se mais formação (pré e pós‑graduação), maior colaboração com assistentes sociais e a implementação de protocolos que facilitem a notificação.
Um estudo divulgado esta quarta-feira pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) revela que casos de maus-tratos a pessoas com 65 anos ou mais podem passar desapercebidos pelos centros de saúde. A investigação conclui que há lacunas na deteção e na notificação na prática clínica.
A pesquisa, publicada na revista BMC Public Health, baseia-se num inquérito junto de mais de 350 clínicos de unidades de saúde do Alto Minho, Trás-os-Montes, Douro, Tâmega e Sousa e Área Metropolitana do Porto. O questionário avalou responsabilidade, detecção e procedimentos.
Resultados-chave: 94% dos médicos reconhecem a responsabilidade de detetar maus-tratos, mas dois terços não desconfiaram de casos no último ano. Cerca de 32% suspeitam de violência, porém apenas metade reporta às autoridades, e 16,9% não denuncia, por decisão da vítima ou do cuidador.
Quase metade dos médicos mostra confiança na identificação de sinais de abuso físico ou negligência. Por outro lado, 55% dizem sentir-se confiantes na deteção de sinais, mas muitos sublinham a ambiguidade dos sintomas psicológicos como principal desafio.
A responsável pelo estudo, Sofia Frazão, aponta dificuldades como a possibilidade de confundir lesões não intencionais com violência, receio de ofender pacientes, quebra de confidencialidade e medo de agravar a violência. Falta de protocolos e tempo também são apontadas.
A FMUP recomenda reforçar a formação, desde o pré ao pós-graduado, e criar vias de comunicação com assistentes sociais. Propõem ainda protocolos de notificação mais simples e clarificação de critérios de diagnóstico para aumentar a deteção e a denúncia.
A docente acrescenta que a literatura científica e a prática clínica devem caminhar juntas para reduzir falhas. Realça que a formação direcionada para violência contra idosos pode melhorar a resposta dos médicos de família aos casos suspeitos.
Os maus-tratos a idosos têm se mostrado um problema de saúde pública global, com consequências graves a curto e longo prazo, incluindo maior risco de ferimentos, intoxicações e doenças físicas e mentais.
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