- Em Portugal, existem cerca de 4,9 milhões de jogadores registados em plataformas licenciadas de jogo online, que geraram 297 milhões de euros em receita bruta no terceiro trimestre de 2025, com as slots a representar 79,2% das apostas online.
- Tiago, que começou a jogar aos 17 anos, ficou viciado após a pandemia, chegando a perder cinco mil euros em menos de uma hora e a recorrer a depósitos rápidos e autoplays que alimentaram o problema.
- Susana, com 26 anos, passou a apostar durante a pandemia e chegou a ter 12 mil euros na conta, recorrendo a créditos e perdendo o controlo até reconhecer a necessidade de parar e pedir apoio à família.
- A autoexclusão e outras ferramentas são usadas por alguns, mas muitos recorrem ao mercado ilegal quando as plataformas regulares bloqueiam o acesso; especialistas destacam que estas medidas são úteis, mas contornáveis.
- A recuperação de Tiago e Susana passa por reconhecer o problema, pedir apoio e aprender a gerir o vício, com a APAJO a destacar o estigma e a necessidade de apoio contínuo, especialmente entre jovens onde o problema é mais grave.
Ao longo de Portugal, o jogo online cresce em número de praticantes, com 4,9 milhões de jogadores ativos em plataformas licenciadas, segundo o SRIJ. O sector gerou 297 milhões de euros em receita bruta no terceiro trimestre de 2025, maior parte vinda das slots (79,2%).
Tiago, 25 anos, recorda o primeiro contacto com o casino aos 18. Entrou com 20 euros e saiu com 250, o que o fez acreditar que o jogo podia gerar rendimento estável. A pandemia acelerou o vício, levando-o a apostar períodos longos sem pausas.
Antes da crise, Tiago já tinha iniciado as apostas no Placard aos 17, no ensino secundário. O registo nocturno passou a ser frequente, com ataques de 9 da noite às 9 da manhã e perdas acima de cinco mil euros em pouco tempo.
A adesão às plataformas online foi intensificada pela dopamina, adrenalina e a sensação de anestesia emocional que o jogo provoca. O uso de depósitos rápidos, autoplay e notificações persuasivas facilita a dependência, segundo o psiquiatra Pedro Morgado.
No Natal de 2022 houve um fim de mês descontrolado: o dinheiro familiar foi pedido com pressa e, dias depois, já estava gasto. Tiago descreve o impulso de manter dinheiro na conta para gastar sem limitações.
Susana, 26 anos, não esconde o vício. Iniciou-se na pandemia, com o boom de Placard e apostas desportivas. Passou a jogar com frequência, alimentando-se de bónus que aumentavam a vontade de apostar, sob a falsa sensação de controlar os ganhos.
Susana chegou a ter 12 mil euros na conta, mas a queda foi rápida entre outubro e dezembro, levando-a a recorrer a créditos. O objetivo inicial era pagar contas, não apostar sem controlo, conclui. A auto-exclusão surge como ferramenta, ainda que nem sempre resistente aos impulsos.
As plataformas disponibilizam limites e mecanismos de auto-exclusão, defendidos pela APAJO como forma de redução de risco. Contudo, muitos utilizadores conhecem as ferramentas e poucos as usam, alerta a associação.
Tiago e Susana chegaram a pedir apoio à família. A rede de apoio é essencial, mas o segredo e a vergonha favorecem o isolamento e dificultam a recuperação, aponta o especialista Pedro Morgado.
Quando Tiago tentou parar, o acesso ao mercado regulado fechou e surgiram alternativas ilegais. O diretor da APAJO explica que estas plataformas são menos protegidas e mais agressivas no design, potencializando o comportamento compulsivo.
O processo de recuperação envolve enfrentar a dependência e aprender estratégias para lidar com o impulso. Susana reconhece que o vício provocou danos a várias pessoas, enquanto Tiago encara a recuperação como um dia de cada vez.
Dados do SNS indicam cerca de 700 pessoas em acompanhamento pelo vício em jogo, números que contrastam com a perceção pública de gravidade. A APAJO frisa que o problema afeta sobretudo jovens, com níveis de preocupação acima da média europeia para apostas desportivas entre adolescentes.
Para 2024, o relatório ESPAD mostra que 64% de estudantes portugueses entre 15 e 16 anos já apostaram dinheiro em jogos desportivos, acima da média europeia. A associação salienta que o combate passa pela informação, limites e acesso a recursos de apoio.
O caso de Tiago encerra com um período de recuperação de seis meses, centrado em manter-se sem jogar e em reconstruir a relação com a família. Susana encara a reabilitação como oportunidade de recuperar valores e estabilidade económica.
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