- Psicóloga com vinte anos de carreira e investigadora da dor, Rute Sampaio passou a narrar a dor também como paciente, após diagnóstico de cancro de mama em agosto de 2024 e dor neuropática pós‑quimioterapia, além de dor musculoesquelética relacionada com hormonoterapia.
- Defende que a dor é o quinto sinal vital, universal e subjetivo, e que o sofrimento pode ser atenuado com compreensão e humanidade, sem reduzir a pessoa ao sintoma.
- Em estudos sobre adesão terapêutica, mostrou que sete dias após a avaliação inicial 37% não aderem corretamente, e após um ano esse valor sobe para 51%, com crenças sobre eficácia e efeitos secundários a explicar a desistência.
- Reforça que quem sofre dor quer apenas ser ouvido com empatia; oferecer soluções rápidas pode agravar o sofrimento, enquanto o silêncio pode piorá‑lo.
- Faz dele, enquanto paciente e pesquisadora, a convicção de que o processo de doença e dor não é bonito, mas desenvolve empatia; cada pessoa encontra as suas “boias” para seguir em frente, e o trabalho de escuta ajuda a manter a identidade.
O que aconteceu: uma psicóloga com 20 anos de carreira revelou, em agosto de 2024, ter recebido o diagnóstico de cancro de mama. Passou a conviver com dor neuropática relacionada à quimioterapia e com dor musculoesquelética associada à hormonoterapia. A experiência transformou-a em paciente que também observa a dor.
Quem está envolvido: a profissional é Rute Sampaio, psicóloga clínica e da saúde, investigadora na área da dor há mais de dez anos. Acompanham-na a equipa médica que a acompanha e as organizações de investigação em dor com que colabora há mais de uma década.
Quando e onde: o diagnóstico foi recebido em agosto de 2024. Acompanhamento médico e entrevistas de investigação ocorreram sobretudo em contextos hospitalares portugueses, incluindo a FMUP e unidades de dor associadas a IPO, tendo como referência a sua atuação profissional e a sua experiência como doente.
O que motivou o relato: a notícia pauta-se pela perspetiva de uma pesquisadora que passou a viver a dor na prática. O objetivo é acompanhar a dor do ponto de vista do paciente, sem reduzir o fenómeno ao sintoma, mantendo o foco no sofrimento e na empatia.
O impacto da dor na vida
A investigadora destaca que a dor é um sinal vital importante, mas que o sofrimento pode ser atenuado com escuta empática. A dor tornou-se tema central da sua vida, tal como da sua investigação sobre adesão terapêutica e estratégias de enfrentamento.
A profissional partilha que, ao longo de entrevistas com mais de mil pessoas, identificou padrões que conectam crenças sobre tratamento a comportamentos de adesão. Subtilmente, explica que o modo como cada pessoa percebe a doença molda as escolhas terapêuticas.
A mudança pessoal gerou também reflexão sobre a comunicação entre médicos, pacientes e familiares. Ela defende que o objetivo é ouvir, compreender e validar a experiência do doente, em vez de oferecer soluções rápidas.
A visão de quem vive a dor
A narrativa da pesquisadora mostra que o processo de doença e dor não é fácil nem previsível. Mesmo com conhecimento científico, a vulnerabilidade persiste, exigindo empatia constante e apoio humano.
Ela descreve a dor como experiência intimamente própria, que pode tornar-se avassaladora. Em momentos críticos, a mensagem central é a necessidade de ouvir sem julgamentos, permitindo que o doente partilhe a sua história.
A pesquisadora relembra ainda que cada pessoa encontra a sua própria forma de lidar com dor e sofrimento, seja pela partilha, pela espiritualidade ou por atividades que tragam conforto, deixando claro que não existem caminhos universais.
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