- Ivo Canelas diz estar a viver a tempestade perfeita na política portuguesa, com uma sociedade cada vez mais dividida e direitos básicos sob pressão, e com o extremismo de direita a ganhar organização.
- No filme “Projecto Global”, o Inspetor-chefe que interpreta é um papel ambíguo; o ator admite que, tempos antes, poderia ter estado do outro lado e destaca o desafio de encenar essa ambiguidade.
- A construção do personagem envolve a ideia de que a certeza absoluta pode ser enganadora, com a linha orientadora do realizador a explorar a dualidade e a gradual descoberta de si pelo corpo.
- Recorda pouco os tempos da FP-25, mas relembra tensões familiares e conversas à mesa; preocupa-se com o futuro das novas gerações e com a influência dos telemóveis na educação dos jovens.
- Está a gravar “Refúgio do Medo” e a 13 de maio estreia no teatro Maria Matos a peça “Sinédoque”, numa parceria com João Vasco, mantendo-se ativo no palco.
Ivo Canelas, em entrevista ao CM Jornal, analisa o momento político e social em Portugal, referindo que o país vive uma tempestade perfeita. O ator aponta para o crescimento de descontentamento e a força de movimentos de direita, num contexto de debates sobre democracia e responsabilidades civis.
O artista aborda ainda o papel de personagens ambíguas na ficção, destacando o desafio de representar dilemas morais complexos. Refere que o sucesso reside na capacidade de mostrar a ambiguidade humana, mesmo quando a narrativa envolve temas sensíveis.
Canelas comenta a responsabilidade de retratar realidades próximas de histórias reais, ressaltando o esforço técnico envolvido na construção de cenas duras. O foco está na humanidade das pessoas, mantendo a narrativa fiel e equilibrada.
Sobre a sua formação de intérprete, o actor descreve um processo de criação que privilegia a dualidade entre certezas e dúvidas. O trabalho inclui a influência de orientações do realizador Ivo Ferreira e a exploração de momentos fortuitos que moldam o personagem.
Recorda os tempos de atuação da FP-25 com pouca memória pessoal, mas com sensações de silêncios e tensões familiares. O ponto de vista familiar ajuda a entender as perspetivas geracionais sobre o passado.
Questionado sobre o impacto atual do seu filme, diz que a distância temporal aumenta a importância de discutir a história. A tudo soma que a atual conjuntura política está marcada por desigualdades económicas e pela ascensão de ideologias radicais, especialmente à direita.
Ao explicar o que define a atual “tempestade perfeita”, aponta crises globais, perdas de direitos e avanços de uma visão retrógrada de género. Observa também que a democracia permanece dinâmica, com respostas sociais que fortalecem o debate público.
Quanto ao futuro, o actor afirma não ter filhos, mas teme o que se desenha para as novas gerações. Destaca a importância de ensinar mecanismos de defesa e de distinguir entre amor saudável e comportamentos tóxicos, num contexto de exposição digital.
Além disso, confirma novos projetos, incluindo o thriller Refúgio do Medo e a peça Sinédoque, com estreia no teatro Maria Matos a 13 de maio. A agenda inclui ainda novas leituras de textos políticos no palco.
Por fim, comenta o desafio de atuar sem personagem, procurando manter a verdade da voz própria em palco. Enfatiza que conhecer a própria identidade é uma tarefa contínua para qualquer ator, mesmo quando o objetivo é representar outro sujeito.
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