- Miguel Bastos Araújo critica falhas de prevenção, planeamento e profissionalização em Portugal, acusando o uso de composições políticas para ocupação de chefias.
- Defende responsabilizar criminalmente quem comete erros que colocam pessoas em risco, citando o caso de Alcácer do Sal submersa.
- Propõe a profissionalização da proteção civil, a qual devia funcionar como um sistema quase paramilitar, em vez de depender de lógicas partidárias.
- Aponta para a existência de estratégias de adaptação às alterações climáticas, mas afirma que as medidas ficam no papel e não são executadas.
- Indica três grandes áreas de intervenção: proteção civil, ordenamento do território e planeamento de infraestruturas, pedindo prioridade à passagem da teoria à obra.
Miguel Bastos Araújo, biogeógrafo da Universidade de Évora e vencedor do Prémio Pessoa, analisa as falhas históricas na prevenção de catástrofes em Portugal. A conversa, centrada na gestão de tempestades, critica o atraso na atuação pública, a fragilidade institucional do ICNF e a falta de execução de estratégias climáticas.
O investigador aponta que o país reage com atraso a eventos extremos e que a gestão atual carece de profissionalização. Argumenta que o sistema de proteção civil deveria funcionar como um serviço estruturado e robusto, com decisões técnicas independentes de pressões políticas.
Aponte que a regionalização não resolveria os problemas, defende, em vez disso, uma profissionalização correspondente à defesa do país. Exige reformas na nomeação de cargos públicos, com base na competência técnica e não apenas na confiança política.
O professor questiona a eficácia das estratégias de adaptação já criadas para o Alentejo e outras regiões, afirmando que muitas permanecem no papel. Aponta a necessidade de avançar da fase de estudo para a fase de obra, com prioridades bem definidas.
Entre as áreas de intervenção, destaca proteção civil, ordenamento do território e planeamento de infraestruturas futuras. Observa que decisões de planeamento aquém da prevenção agravam riscos e custos para a sociedade.
Sobre a responsabilização, sugere, em tom firme, atribuir responsabilidade criminal a responsáveis por decisões que colocaram comunidades em risco. Argumenta que a responsabilização pode induzir mudanças estruturais no funcionamento do Estado.
Em relação à gestão de recursos, defende que o sistema de proteção civil tenha uma hierarquia similar à da defesa, com logística eficiente e gestão de recursos escassos. Diz que a ausência de execução compromete a segurança pública.
Quanto ao futuro, aponta que o país deve aproveitar a janela de bonança para transformar a prevenção em prática. Reforça a necessidade de desobstruir leitos de cheia, reordenar o território e impedir novas construções em zonas de risco.
Apoia ainda a ideia de uma agenda de prevenção que reduza a incidência de tragédias, com ações de curto, médio e longo prazo. Enfrenta o tema com foco técnico, evitando linguagem partidária ou conclusões morais.
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