- António Lobo Antunes, aos 76 anos, acaba de publicar o 29.º romance, A Última Porta antes da Noite, e a Biblioteca Pléiade vai incluir a sua obra; o escritor aceitou o desafio de perspetivar a génese da sua produção.
- O autor afirma não reler os seus livros e evita classificá-los como romances; revela pudor e prefere falar dos trabalhos dos outros.
- Relembra o seu percurso, desde Memória de Elefante (1999) — com dificuldades iniciais e vitórias como Os Cus de Judas — até a viragem tecnológica de O Conhecimento do Inferno (1980) e a construção de uma prosa mais rica.
- Explica a ênfase em pessoas humildes e nas diversas classes sociais, a importância da experiência de guerra e do espanto infantil, bem como o cuidado com a linguagem e o método de construção dramática.
- Confessa inseguranças, o trabalho com Jeff Love (biógrafo), o desejo de continuar a escrever sem pressões e a ideia de que ainda não terminou a sua obra, apontando para novas obras no futuro.
António Lobo Antunes, aos 76 anos, concedeu à PÚBLICO uma entrevista de olhar sobre a sua obra, no momento em que lança o 29º romance, A Última Porta antes da Noite, e acompanha a notícia de que a sua produção será publicada na Pléiade. O escritor partilha memórias, reflexões sobre a escrita e a relação com a própria vida.
O autor explica que não costuma reler os seus livros e comenta o processo de construção da obra ao longo dos anos. Ao longo do diálogo, desfiou episódios da juventude, da guerra em África e das escolhas editoriais que o moldaram enquanto escritor.
A conversa recua até Memória de Elefante, publicada em 1979, quando ainda vivia no Monte Estoril e enfrentava dificuldades financeiras e o vício do jogo. A história de publicação percorre editoras, mudanças de títulos e a obstinação que o levou a encontrar o suporte necessário.
Entre os temas centrais, emergem a escrita como fogo interno, a tentação do lixo literário e o papel do pai, cuja perspetiva marcou profundamente o autor. O escritor descreve a guerra como um fenómeno formidável que o marcou enquanto pessoa e como motivo literário.
O diálogo recorta ainda a cinematografia da vida familiar: a relação com os irmãos, os jantares de família, a influência da mãe e as dificuldades de crescer numa casa de classe social marcada. Através dessas memórias, o autor reflete sobre a felicidade e o sentido da arte.
A entrevista aborda a construção de obras que dialogam com a história de Portugal, desde Fado Alexandrino ao romance recente, com o fulcro na diversidade de vozes que habitam os seus livros. O escritor realça o valor da linguagem popular e do encontro com pessoas humildes.
O autor explica o método de trabalho atual: dedica-se exclusivamente à escrita, com o apoio de Jeff Love, que o acompanha na biografia e na tradução de textos. O objetivo é manter a escrita como atividade principal, sem compromissos profissionais paralelos.
No que toca aos títulos, o escritor admite que muitos surgem de impulsos interiores que não consegue explicar totalmente. Reconhece, porém, a influência de referências literárias e de memórias familiares na formulação de cada livro.
O Última Porta antes da Noite é visto como conclusão provisória de uma trilogia africana que inclui Omãos com passagens em Portugal e Angola. O autor afirma ter planos para novas obras, ainda que admita ser movido pela curiosidade criativa e pela vontade de aperfeiçoar o que já fez.
Pléiade e futuro da obra
A entrevista confirma a intenção de tornar a obra de Lobo Antunes parte de uma edição de referência na Pléiade, ampliando o reconhecimento internacional do escritor. O bazar de ideias que o cerca aponta para um futuro em que a literatura continua a ser o eixo principal da sua vida.
Para além da visão de conjunto sobre a carreira, o autor revela um traço essencial: o humor presente na ficção, visto como complemento à crítica social e ao retrato humano que caracteriza a sua escrita. A conversa encerra com a expectativa de novas criações, guiadas pela curiosidade e pela meticulosidade do autor.
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