- Mais de metade dos alunos com origem imigrante já sentiu discriminação na escola, segundo um estudo com 935 inquiridos.
- A investigação ocorreu em nove escolas de três concelhos de Lisboa (Sintra, Amadora e Lisboa) ao longo de dois anos letivos (2022/2023 e 2023/2024), focando o 9.º ano.
- Entre os casos de discriminação, 46,6% envolvem apenas alunos, 35% envolvem professores e 10,9% assistentes operacionais; 32,8% não especificam o motivo, com 30,4% alusivos a características/ aparência física, 24,2% à cor da pele e 19,1% ao território de origem.
- Alunos de origem imigrante de primeira geração sentem-se menos incluídos (cerca de 47%) do que os de segunda geração (21%), face a uma inclusão maior entre alunos com progenitores portugueses (cerca de 90% dizem sentir-se muito ou completamente incluídos).
- O estudo defende monitorização nacional da discriminação, melhorias na acolhimento e inclusão, e ressalva que as práticas atuais são desiguais e dependem de recursos, pedindo políticas educativas mais direcionadas.
Em uma análise realizada ao longo de dois anos letivos, 2022/2023 e 2023/2024, um estudo coordenado pela investigadora Sílvia de Almeida revela discriminação em escolas portuguesas. O inquérito envolveu 935 alunos imigrantes e agregou mais de 1400 participantes, incluindo docentes e outros profissionais.
A pesquisa abrange nove escolas com elevada presença de alunos de origem imigrante, situadas em Sintra, Amadora e Lisboa, e foca turmas do 9.º ano. Os resultados apontam para uma elevada incidência de discriminação, mesmo em contextos educativos que promovem a inclusionão.
Discriminação por parte de colegas, professores e assistentes operacionais
A maior parte das situações de discriminação denunciadas envolve apenas colegas de turma (46,6%), com 32,8% sem especificar o motivo. Entre as razões indicadas, destacam-se características físicas (30,4%), cor da pele (24,2%) e origem territorial (19,1%).
Casos envolvendo o corpo docente e o pessoal de apoio
Casos em que estão envolvidos professores chegam a 35%, enquanto ocorrências com assistentes operacionais representam 10,9%. O estudo sugere necessidade de monitorização nacional do fenómeno e avaliou a eficácia de medidas de combate à discriminação.
Perceção de inclusão entre os alunos
Entre os participantes, 39% dos alunos com progenitores portugueses reportam sentir-se muito ou completamente incluídos, com melhores resultados académicos médios. Em contraste, 47% dos alunos de 1.ª geração imigrante e 21% da 2.ª geração sentem-se pouco ou nada incluídos.
Impacto na inclusão educativa
O relatório, elaborado pela EPIS – Empresários pela Inclusão Social, aponta que as práticas de acolhimento e de ensino de Português Língua Não Materna existem, mas são desigualmente implementadas e dependentes de recursos. A escola é apontada como elemento-chave na construção de percursos de sucesso.
Acesso a atividades e participação
A investigação aponta que a participação em atividades extracurriculares, cargos de responsabilidade e diversidade de turmas influenciam o sentimento de pertença. Contudo, alunos imigrantes permanecem sub-representados em clubes, projetos e órgãos de decisão escolar.
Dados estatísticos relevantes
A metodologia utiliza regressão logística multinominal para estimar impactos. A probabilidade de declarar plena inclusão aumenta 11 vezes quando o aluno e os pais têm naturalidade portuguesa, e aumenta 4,4 vezes por cada atividade extracurricular associada.
Implicações e recomendações
O estudo alerta para o risco de reprodução de desigualdades sem resposta estructural à diversidade cultural crescente. É defendido o reforço de políticas educativas direcionadas ao acolhimento e à inclusão, para mitigar discriminações no ambiente escolar.
Evento de apresentação
A apresentação dos resultados ocorreu na conferência Acolher para Incluir, em Lisboa, organizada pela EPIS, com o objetivo de rastrear, compreender e potenciar o percurso dos alunos imigrantes nas escolas portuguesas.
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