- Óscar Afonso, vice-presidente da Associação Círculo de Estudo do Centralismo (ACEC), alertou na conferência anual da associação sobre a concentração de grandes projetos em Lisboa e a necessidade de diagnosticar as causas, não apenas os sintomas.
- O economista defendeu que fenómenos como despovoamento, envelhecimento e falta de investimento refletem problemas estruturais acumulados há décadas e não questões isoladas.
- Identificou duas fragilidades centrais: baixa coesão territorial e elevada especialização em atividades de baixo valor acrescentado, que se reforçam mutuamente.
- Apontou a ausência de reforma territorial do Estado, de estratégia de investimento público e de diversificação produtiva como causas do bloqueio ao desenvolvimento nacional.
- No plano territorial, destacou a concentração de população, poder de decisão e investimento na Área Metropolitana de Lisboa, em detrimento de outras regiões, e pediu descentralização, reorientação do investimento público e criação de polos regionais com massa crítica.
A conferência anual da Associação Círculo de Estudo do Centralismo (ACEC), na Faculdade de Economia da Universidade do Porto, centrou-se na avaliação dos grandes projetos previstos para Lisboa. O vice-presidente Óscar Afonso alertou para a necessidade de não avançar para soluções sem compreender as causas profundas dos problemas estruturais. O discurso enfatizou um diagnóstico rigoroso como ponto de partida para políticas públicas eficazes.
Para o economista, fenómenos como despovoamento, envelhecimento e investimento insuficiente são apenas manifestações de desequilíbrios acumulados ao longo de décadas. Afonso distinguiu diferenças naturais entre regiões de problemas persistentes que comprometem o desenvolvimento nacional quando se cristalizam, afetando a coesão e o crescimento.
O diagnóstico apresentado aponta para duas fragilidades centrais: baixa coesão territorial e elevada dependência de atividades de baixo valor acrescentado. Estas dimensões alimentam-se mutuamente, dificultando a convergência com economias mais desenvolvidas e gerando um bloqueio ao investimento privado e público.
No plano territorial, o economista chamou a atenção para a concentração de população, decisão e recursos na Área Metropolitana de Lisboa, enquanto outras zonas perdem massa crítica. Este desequilíbrio, segundo Afonso, impede ciclos de desenvolvimento em regiões distintas e aumenta a dependência de um polo dominante.
Novo aeroporto
Afonso questionou a concentração de grandes projetos públicos na capital, incluindo o novo aeroporto, a expansão ferroviária e grandes intervenções urbanas. A acumulação num único território revela, na leitura dele, uma visão estratégica incompleta e acarreta custos como congestionamento, pressão imobiliária e degradação da qualidade de vida.
Defendeu, ainda, que num país com recursos limitados é crucial definir prioridades claras e distribuir o investimento para potenciar territórios subaproveitados. O argumento foi de que anunciar projetos irrealistas numa zona com maior população pode parecer politicamente conveniente, mas não inspira confiança.
Descentralização e diversificação
Ao encerrar a intervenção, o orador apelou à descentralização efetiva, à reorientação do investimento público para maximizar retorno social e à diversificação da base produtiva. O objetivo é criar polos regionais com massa crítica que promovam crescimento sustentável e coesão territorial.
Sem mudanças estruturais, a leitura apresentada sugere que Portugal pode manter um modelo desequilibrado e vulnerável, com impactos persistentes na coesão regional e na capacidade de resposta a longo prazo.
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