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Como baixar impostos aos ricos mudou a Suécia e a cooperação pública

A abolição do imposto sobre grandes fortunas, em 2006, é apresentada como marco que acelera a desigualdade e desmonta o espírito de bem-estar coletivo na Suécia

“Quando o imposto sobre grandes fortunas foi abolido, não estava a pensar que os milionários estavam a receber um benefício
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  • A Suécia passou de país reconhecido pela igualdade para um “paraíso para os super-ricos” após abolir o imposto sobre grandes fortunas há cerca de vinte anos, ao mesmo tempo em que criou deduções para serviços domésticos e obras em casa.
  • A abolição, em 2006, coincide com o aumento de multimilionários no país e com um abrandamento do Estado social, refletido num coeficiente de Gini de 0,3, frente a 0,2 nos anos oitenta.
  • Reformados entrevistados descrevem a redução fiscal como parte de uma transformação que desmantelou o projeto coletivo de construir uma sociedade mais coesa, deixando-os com sensação de perdas.
  • Hoje, apenas três países europeus aplicam imposto geral sobre grandes fortunas (Noruega, Espanha e Suíça); na Suécia persiste o debate sobre o tipo de sociedade que o país quer projetar.
  • A investigação sugere que a ausência de impostos sobre grandes fortunas tem impactos sociais amplos, influenciando a forma como as pessoas percebem a solidariedade e a função do Estado social.

Durante grande parte do século XX, a Suécia foi vista como um dos países mais igualitários da Europa. Hoje, é descrita como um “paraíso para os super-ricos”, onde há várias empresas unicórnio e uma proporção crescente de multimilionários em dólares.

A abolição do imposto sobre grandes fortunas há cerca de 20 anos, acompanhada de deduções para serviços domésticos e obras de melhoria, é apontada como marco dessa mudança. Dois decénios depois, o país regista mais casas com serviços de limpeza e uma pressão social diferente sobre o Estado de bem-estar.

Várias reformas contribuíram para esse quadro, incluindo a redução da proteção social e a privatização de serviços públicos a partir dos anos 1980. Os entrevistados, idosos reformados, descrevem uma sociedade menos coesa e mais segmentada.

Impacto social e económico

A investigação aponta que o debate sobre riqueza e impostos vai além da arrecadação: influencia a forma como as pessoas imaginam a vida em comum. O coeficiente de Gini tem aumentado, sinalizando maior desigualdade em relação ao passado.

Relatos de reformados de Estocolmo indicam que a ausência de um imposto sobre fortunas se refletiu na perceção de que a sociedade já não constrói em conjunto. Muitos reconhecem que não protestaram na altura, o que contribuíu para a transformação do modelo social.

Hoje existem apenas alguns países europeus com um imposto geral sobre grandes fortunas. A Suécia passou a conviver com um sistema em que a riqueza é mais concentrada, suscitando um debate sobre o tipo de sociedade que se pretende manter.

Perspectivas sobre o modelo sueco

Enquanto alguns veem o legado do Estado social construído ao longo de décadas como uma base de igualdade, outros observam que o país mudou para um cenário mais favorável aos detentores de grandes fortunas. A percepção pública tem sido de que o equilíbrio entre contributos e benefícios se afastou do ideal original.

Entre as vozes consultadas, há uma ideia de que o passado representava uma rede de proteção para famílias durante a infância, com acesso a educação, saúde e serviços básicos. Hoje, essa memória contrasta com a visão de uma sociedade menos integrada.

As entrevistas destacam ainda o papel das gerações mais velhas na conformação da história recente: alguns reconhecem que a abolição do imposto sobre fortunas foi um ponto de inflexão que alterou o rumo do Estado social na Suécia.

Contexto histórico e fontes

O debate sobre o imposto sobre grandes fortunas remonta a 1911, com avanços sociais que consolidaram o modelo de bem-estar. A abolição em 2006 é vista por muitos reformados como uma mudança-chave para o que hoje se percebe como uma sociedade de maior desindustrialização social.

As discussões atuais envolvem perguntas sobre o que se pretende manter: um modelo de Estado social mais abrangente ou uma estrutura mais permissiva para a acumulação de riqueza. A pesquisa mostra que as escolhas políticas afetam diretamente a visão de futuro da população idosa.

Exclusivo P3/The Conversation

Miranda Sheild Johansson é investigadora sénior em Antropologia Social na University College London. Os nomes dos entrevistados foram alterados para proteger a identidade.

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