- Governo inicia a reestruturação da APA (e, em breve, do ICNF) para simplificar o licenciamento, com foco na digitalização e na fiscalização ex post.
- Despacho n.º 5797/2026, assinado a 28 de abril, define a APA como alvo prioritário e estabelece um prazo de dois meses, até 28 de junho de 2026, para apresentar uma proposta de reestruturação.
- Medidas previstas incluem eliminar procedimentos redundantes, usar inteligência artificial e aplicar o princípio “only once”, além de reforçar a capacitação de recursos humanos.
- Ambientalistas alertam para riscos de danos irreversíveis em habitats protegidos com a substituição do controlo prévio pela fiscalização posterior, criticando a simplificação.
- O processo levanta questões de conformidade com a legislação europeia (Natura 2000, deferimento tácito, Convenção de Aarhus), com recomendações para alterar a legislação para evitar incumprimentos.
O Governo iniciou uma reestruturação da APA e prepara mudanças no ICNF, como parte de uma reforma administrativa iniciada em 2025. O objetivo é simplificar licenciamento, com foco na digitalização e na melhoria da eficiência. A medida prevê substituir o controlo prévio pela fiscalização posterior.
A reestruturação é apresentada como passo para um Estado mais moderno e orientado para o cidadão. Contudo, ambientais alertam para riscos de danos irreversíveis em habitats protegidos caso a fiscalização posterior seja insuficiente.
O despacho governamental, emitido a 28 de Abril de 2026, justifica a prioridade à APA pela dimensão e pela relação com cidadãos e empresas. O processo deverá ficar concluído em dois meses, até 28 de Junho, com o ICNF a seguir no mesmo caminho.
O que está previsto concretamente para os próximos dois meses?
O processo de diagnóstico visa levantar processos e apresentar uma proposta ao ministro da Reforma do Estado. A coordenação fica a cargo do ministro Adjunto, com o Secretário de Estado da Simplificação e a ministra do Ambiente a acompanhar.
Entre as frentes de intervenção estão a eliminação de procedimentos desnecessários, o aumento da digitalização com IA e a aplicação do princípio only once, evitando pedidos repetidos de informação já prestada. A formação de recursos humanos também está prevista.
A nota do Gabinete do Ministro Adjunto esclarece que a reforma não substitui políticas ambientais, apenas simplifica a gestão administrativa. Ambientalistas defendem que a mudança pode colocar em causa padrões de proteção.
Alterações legislativas e prazos
Ainda não há diplomas específicos para a reestruturação da APA. As alterações devem emergir do diagnóstico, com novos decretos-leis esperados após o prazo de dois meses. O enquadramento legal atual continuará a impor prazos máximos para decisões.
Em paralelo, a legislação existente já prevê condições técnicas padronizadas e declaração de responsabilidade para determinadas atividades, o que pode acelerar o processo sem comprometer critérios ambientais.
Por que há resistência?
Organizações ambientais alertam para riscos de transposição de lógicas urbanísticas para o ambiente. A SPEA menciona perigos graves de destruir habitats prioritários, enquanto a Zero e a Quercus receiam fragilização de avaliações ambientais.
A WWF Portugal sustenta que o licenciamento serve para assegurar critérios essenciais, e qualquer simplificação pode deteriorar a qualidade da água e do ar. A Comissão Europeia já criticou a abordagem em relação a medidas compensatórias no âmbito da Natura 2000.
Riscos jurídicos e internacionais
Portugal enfrenta possíveis infrações junto do TJUE por permitir medidas compensatórias na Avaliação de Impacte Ambiental em fases iniciais. O deferimento tácito é visto como incompatível com directivas europeias, segundo especialistas.
O Comité de Cumprimento da Aarhus já condenou o país por prazos de consulta pública considerados curtos demais. O CNADS, em 2025, reforçou que processos expeditos costumam contornar a participação pública.
Em resumo, a aposta na simplificação administrativa encontra obstáculos legais e compromissos internacionais. O Governo afirma que a reforma visa eficiência, mas a comunidade técnica exige salvaguardar padrões ambientais.
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