- A água representa cerca de noventa e cinco por cento da dinâmica de calor da Terra há mais de quatro mil milhões de anos, e o sistema da “esponja de carbono do solo” atua como arrefecedor natural por meio da evapotranspiração.
- A evapotranspiração exporta aproximadamente oitenta W por metro quadrado, o que corresponde a cerca de vinte e quatro por cento da energia solar recebida, regulando o clima global.
- Globalmente, quarenta e dois por cento das terras agrícolas já estão degradadas, com a Europa a registar entre sessenta e setenta por cento de solos não saudáveis e os Estados Unidos a mostrarem degradação em cerca de um terço dos solos.
- A desflorestação e outras pressões reduzem a capacidade de infiltração e armazenamento de água, favorecendo ondas de calor, secas e perdas agrícolas; em 2024, os trópicos perderam cerca de seis milhões e setecentos mil hectares de floresta primária.
- O relatório defende restaurar a esponja de carbono do solo, com ganhos como aumento da evapotranspiração capaz de compensar até três vezes o aquecimento causado pelos gases de efeito estufa, e aponta que melhoria da saúde do solo pode sequestrar entre três e cinco gigatoneladas de CO₂ por ano.
A água governa 95% da dinâmica de calor do planeta, segundo um relatório do movimento Save Soil. O documento afirma que o motor da estabilização climática não é o carbono, mas a água, cuja gestão está por debaixo dos nossos pés.
O estudo, intitulado A Esponja de Carbono do Solo, defende que a “esponja de carbono do solo” funciona como sistema de arrefecimento hidrológico. Ela absorve humidade, sustenta a vegetação e dissipa calor como vapor de água.
Segundo o relatório, a evapotranspiração devolve à atmosfera cerca de 80 W/m², aproximadamente 24% da energia solar recebida. Em solos saudáveis, o solo pode alojar até 25 mil km de hifas fúngicas, formando redes que sustentam a estrutura do ecossistema.
Estimação de impactos
Quando em funcionamento, o calor é transferido para a atmosfera sem aquecer o ar superficial. Em degradação, a energia passa a calor sensível e as temperaturas sobem. A pesquisa alerta para uma degradação generalizada da qualidade do solo.
Na Europa, 60 a 70% dos solos agrícolas não estariam saudáveis, atribuídos à agricultura intensiva, urbanização e alterações climáticas. Globalmente, 52% das terras agrícolas estariam degradadas, com efeitos na humidade e na produção de alimentos.
Consequências e números
A radiação solar no topo da atmosfera está estável, mas a retenção de calor depende da saúde do solo. Entre 2018 e 2024, défices de humidade contribuíram para ondas de calor e perdas agrícolas na região europeia; nos EUA, seca afectou mais de 40% das terras agrícolas entre 2023 e 2024.
O relatório cita ainda um documento da ONU sobre a falência global da água, salientando custos da seca que excedem os 307 mil milhões de dólares anualmente, com perda de humidade do solo como fator crítico.
Como inverter o rumo
O estudo argumenta que restaurar a esponja de carbono do solo e a cobertura vegetal poderia contrariar o aquecimento, aumentando a evapotranspiração o suficiente para compensar parte do aquecimento global. Pequenas mudanças no conteúdo de matéria orgânica do solo trazem ganhos significativos de água retida por hectare.
A organização aponta que melhorar a saúde do solo pode sequestrar entre três e cinco gigatoneladas de CO2 por ano, com benefícios para a água e a alimentação. Florestas tropicais desempenham papel central, ao libertar calor latente e favorecer a formação de nuvens.
Desflorestação e cenários
Desflorestação compromete o funcionamento do ciclo da água. Em 2024, os trópicos perderam cerca de 6,7 milhões de hectares de floresta primária; no Brasil, entre 2002 e 2024, foram perdidos 34 milhões de hectares. O relatório destaca o impacto na infiltração de água e na regulação climática.
Recomendações do relatório
O documento apresenta nove medidas, entre elas regenerar a esponja de carbono do solo em áreas agrícolas, pastagens e florestas; manter cobertura vegetal permanente; integrar a recuperação do solo em políticas climáticas e de desenvolvimento. O objetivo é recuperar até 3 W/m² de arrefecimento natural.
A proposta é que a evapotranspiração, a formação de nuvens e a reciclagem de precipitação funcionem novamente como estabilizadores climáticos, entendendo a água como motor central da dinâmica térmica da Terra.
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