- Um estudo internacional liderado por cientistas portuguesas avaliou 94 espécies de fungos de géneros monotípicos, ou seja, com apenas uma espécie descrita.
- O foco foi identificar o risco de extinção e a singularidade evolutiva destas linhas, muitas sem dados suficientes para avaliar o seu estado.
- Dos 94 casos, nove são considerados ameaçados ou próximos disso, 28 apresentam baixo risco e 56 são classificados como inventory data deficient (dados deficientes); uma espécie não foi analisada.
- Em Portugal, uma espécie avaliada é o Cupreoboletus poikilochromus (também Cyanoboletus poikilochromus), associada a carvalhos e com ocorrência na Europa e Ásia Ocidental; o estatuto EDGE ainda precisa de confirmação.
- Os autores destacam lacunas de conhecimento, defendem mais investigação de base, uso de ADN ambiental e envolvimento da ciência cidadã para evitar perder espécies únicas sem aviso prévio.
A investigação, liderada por científicas portuguesas, alerta para o possível desaparecimento de fungos únicos na árvore da vida, sem que a ciência tenha plena percepção disso. O estudo, publicado na Conservation Letters, envolve 94 espécies de géneros monotípicos e aponta lacunas graves no conhecimento sobre estes organismos. O foco é a preservação de ramos evolutivos únicos.
Conduzido pelo Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e pelo Comité para a Conservação dos Fungos da IUCN, o trabalho analisa espécies com pouca ou nenhuma relação de parentesco conhecida. O objetivo é identificar riscos de extinção e a necessidade de aprofundar o entendimento sobre a distribuição, ecologia e diversidade dos fungos.
Os resultados indicam que nove espécies já são consideradas ameaçadas ou próximas disso, 28 apresentam baixo risco e 56 carecem de dados suficientes para classificação. Uma das espécies avaliadas não foi analisada, reforçando a incerteza sobre o estado atual de muitas linhagens.
Susana P. Cunha, autora principal, destaca que a deficiência de dados reflete lacunas profundas no conhecimento. Muitas espécies são conhecidas apenas pela descrição original, há mais de uma década, sem registos subsequentes. Isso implica que podem existir espécies únicas já em risco sem ser reconhecidas.
Susana C. Gonçalves acrescenta que uma espécie avaliada no estudo, o Cupreoboletus poikilochromus, é nativa de Portugal e pertence à bacia mediterrânica, associando-se a carvalhos para formar ectomicorrizas. O estatuto de EDGE desta espécie ainda precisa de confirmação, e pode haver outras EDGE no território em grupos de fungos não incluídos no estudo.
Espécie em Portugal
O trabalho resultou em 85 novas avaliações para a Lista Vermelha global de espécies de géneros monotípicos de várias regiões. Destas, apenas quatro têm estatuto de ameaça e de EDGE. A elevada percentagem de espécies com dados deficientes (cerca de 60%) surpreendeu os autores, que esperavam menos lacunas no conhecimento.
Os fungos desempenham funções centrais na decomposição e nos ciclos de nutrientes, mas continuam pouco prioritários em conservação. Não existe, ainda, uma lista consolidada de fungos evolutivamente distintos e ameaçados, o que dificulta políticas públicas de proteção.
Para alterar este cenário, os investigadores defendem reforçar a investigação básica, com inventariações de campo e uso de ADN Ambiental para detetar espécies pouco observáveis. A ciência cidadã também pode ajudar a preencher lacunas, potenciando projetos participativos para registos recentes.
A recomendação é realizar análises moleculares para confirmar a posição isolada na árvore da vida e, se confirmado, colocar estas espécies entre as prioridades de conservação. Sem ações coordenadas, existe o risco de perder parte do património natural sem conhecimento prévio.
Além das pesquisadoras Susana P. Cunha e Susana C. Gonçalves, a equipa contou com a colaboração de Steven P. Bachman, Eimear Nic Lughadha, James R. S. Westrip, Cátia Canteiro e Greg M. Mueller. O estudo enquadra-se numa perspetiva mais ampla de risco para o reino dos fungos, com mais de 30% das espécies avaliadas pela IUCN em risco de extinção.
Muitas das espécies ameaçadas estão em habitats próximos de áreas urbanas, o que reforça a responsabilidade de proteger fungos que podem existir à vista de todos. Os autores destacam a importância de olhar para fora de zonas remotas e considerar a conservação de fungos em contextos humanos.
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