- O clima está a mudar e as casas portuguesas foram feitas para um clima estável, mas enfrentam verões quentes, ventos fortes e fenómenos extremos cada vez mais frequentes.
- O parque habitacional é envelhecido e não incorpora as adaptações necessárias, agravando problemas de sobreaquecimento, frio intenso e danos por tempestades.
- Técnicas de construção com menor carbono são destacadas, com exemplos como o Macau Valley, em Vila Nova de Gaia, que apresenta pegada carbónica inferior à média europeia (461 kg CO2e por m²).
- A modularidade e a pré-fabricação surgem como caminhos para reduzir custos, melhorar qualidade e permitir desmontar e reutilizar peças em novos edifícios. Em Oeiras, 14 habitações públicas usam módulos de madeira.
- Mesmo assim, persiste o desafio de tornar a sustentabilidade acessível, evitando custos excessivos e promovendo reabilitação em vez de demolição, para reduzir emissões e manter a habitação económica.
O clima mudou e as habitações portuguesas ficaram atrás. Com ondas de calor, ventos fortes e um parque habitacional envelhecido, arquitetos discutem como adaptar a construção a um futuro mais quente.
Segundo a FAUP, as casas não foram reprojetadas para o novo regime climático e mantêm vulnerabilidades ao sobreaquecimento no Verão e a fenómenos extremos no Inverno. A intervenção continua a ser necessária para reduzir o impacto.
Especialistas assinalam que Portugal enfrenta um parque habitacional envelhecido e regras que nem sempre refletem o clima de transição do Sul da Europa. A pobreza energética também é um desafio expressivo no país.
A construção descarbonizada surge como eixo central. Dados indicam que quase 40% do CO2 global está ligado ao sector da construção, apontando para a necessidade de reduzir a massa carbónica dos edifícios.
Macau Valley e a pegada carbónica
O projecto Macau Valley, em Vila Nova de Gaia, aposta em uma abordagem de baixo carbono. A avaliação do ciclo de vida, realizada pela Dosta Tec, indica 461 kg CO2e por m2, abaixo da média europeia (600 kg CO2e/m2).
O estudo considerou orientação solar, sombreamento e ventilação cruzada para reduzir consumos energéticos e evitar ambientes dependentes de ar condicionado. O uso de 97% de conteúdo reciclado no steel and concrete é destacado pelo gabinete Hori-zonte.
Materiais e inovação
A investigação em betão com casca de arroz, desenvolvida em Ovar pela Farcimar em parceria com o Itecons, representa uma linha de inovação. O material visa reduzir emissões associadas ao cimento e ao agregado, mantendo o desempenho estrutural.
A modularidade é apresentada como forma de melhorar qualidade, condições de trabalho e custos. Peças produzidas em fábrica possibilitam controlo de produção, redução de desperdícios e maior reciclabilidade.
Modularidade e eficiência
O sistema modular, com peças de madeira ou betão, já está a ser aplicado em habitação pública em Oeiras. A produção em fábrica facilita o controlo de custos e pode permitir desmontagem futura para reutilização em novos edifícios.
A comunidade académica reforça que a modularidade não é ficção científica: é uma ferramenta para melhorar a sustentabilidade sem sacrificar a acessibilidade. A capacidade de medir impactos é essencial para validar a sustentabilidade.
Desafios da implementação
A sustentabilidade não deve encarecer a construção. Alguns especialistas apontam que exigências normativas atuais elevam custos iniciais e desincentivam a inovação, limitando o impacto positivo a médio e longo prazo.
A reabilitação surge como caminho preferível do ponto de vista ambiental e de custo. Demolir e reconstruir gera emissões elevadas, enquanto a reabilitação reduz impactos e pode aumentar a eficiência sem depender de tecnologias dispendiosas.
Comportamento económico e político
Há consenso de que a indústria exige soluções mais acessíveis e menos dependentes de tecnologias avulsas. A adoção de práticas de construção mais eficientes depende de políticas públicas que valorizem o desempenho ao longo do ciclo de vida dos edifícios.
Promover a reabilitação, melhorar a qualidade de materiais e apoiar mecanismos de financiamento para soluções sustentáveis são pontos centrais para avançar a adaptação climática no setor habitacional.
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