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Hospital regista mais de 500 vítimas de mutilação genital feminina em dez anos

Hospital identifica mais de quinhentos casos de mutilação genital feminina ao longo de dez anos, destacando necessidade de sensibilização, diagnóstico precoce e prevenção

Foto: Leonel de Castro / Arquivo
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  • Hospital identificou mais de 500 vítimas de mutilação genital feminina nos últimos dez anos, com maior parte de mulheres em idade fértil provenientes de Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Senegal, Gâmbia, Nigéria, Gana e Congo.
  • Entre setembro de 2015 e dezembro de 2025 nasceram mais de 240 meninas filhas de mães submetidas a esta prática.
  • Nos últimos dois anos foram identificados 128 casos, destacando-se impactos como dor no ato sexual e parto com lacerações mais graves.
  • A deteção ocorre principalmente durante a gravidez e o internamento; a equipa realiza sensibilização durante o parto, com média de três dias de contacto, e depois encaminha para acompanhamento nas unidades de saúde.
  • A sensibilização envolve homens e estende-se aos cuidados de saúde primários, pediatria e escolas, com foco na prevenção nas gerações futuras e na informação sobre a lei e os direitos das meninas; a mutilação é crime público.

Mais de 500 vítimas de mutilação genital feminina foram identificadas num hospital em Portugal ao longo de dez anos. A informação foi confirmada pela Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra (ULSASI) a propósito do Dia Internacional da Tolerância Zero à MGF.

A maioria das vítimas são mulheres em idade fértil oriundas de Guiné-Bissau, Guiné-Conacri, Senegal, Gâmbia, Nigéria, Gana e Congo. Entre setembro de 2015 e dezembro de 2025 nasceram mais de 240 meninas filhas de mães submetidas à prática.

Para o Grupo de Trabalho Responsável pela MGF no Hospital Fernando Fonseca (HFF), os números reforçam a importância da sensibilização e da capacitação dos profissionais de saúde para identificar e sinalizar estas situações, prevenindo a prática nas futuras gerações.

Descrição clínica e impactos

Ana Paula Ferreira, diretora de Obstetrícia da ULSASI, afirma que apenas nos últimos dois anos foram identificados 128 casos. Entre as vítimas estão quem vive em Portugal há anos e quem chegou recentemente, principalmente da Guiné.

As vítimas podem não ter consciência da mutilação. Em alguns casos, a relação com a prática surge apenas quando confrontadas com situações do dia a dia, como diminuição do prazer sexual. Em graus elevados, há dor durante o ato sexual e maior dificuldade no parto.

Do ponto de vista psicológico, há impacto significativo, já que parte do corpo foi removida sem consentimento. A equipa de saúde realça a necessidade de apoio e informação às pacientes para compreender a situação.

Trabalho de sensibilização

A deteção ocorre maioritariamente na gravidez, durante consultas de vigilância ou na admissão à maternidade, incluindo mulheres que chegam para o parto. O tempo de internamento limita a intervenção a, em média, três dias.

Após o parto, a equipa recolhe dados clínicos sobre consciência da mutilação, idade em que ocorreu e queixas ao longo da vida, como dor no ato sexual. O objetivo é perceber abertura para evitar novas práticas.

Continuidade de cuidado e envolvimento

Depois da alta, as mulheres são referenciadas para acompanhamento nas unidades de saúde locais, com registo numa plataforma nacional que envolve também filhas e bebés. A equipa alerta para períodos de maior risco, como pausas letivas.

A iniciativa envolve ainda a sensibilização de homens, cuidados de saúde primários, pediatria e escolas. Profissionais são encorajados a compreender o contexto sociocultural e a cumprir a lei em Portugal, sem julgamentos.

Contexto legal e prioridades

A MGF é definida pela remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos femininos, ou lesões nos mesmos, por razões não médicas. É reconhecida como crime público e forma de maus-tratos, com violação de direitos humanos.

A ULSASI reforça a importância de ações de formação e de cooperação entre saúde escolar e cuidados primários para melhorar a deteção precoce e a proteção das meninas.

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