- O físico da atmosfera Pedro Matos Soares destaca que as alterações climáticas vão provocar mais fenómenos extremos em Portugal e que é preciso melhorar as infraestruturas e os sistemas de alerta.
- Entre 22 e 28 de janeiro, Portugal continental foi atingido por três tempestades sucessivas — Ingrid, Joseph e Kristin — com esta última a deixar pelo menos 10 mortos e destruição nos distritos de Leiria, Coimbra e Santarém.
- O especialista sublinha que as mudanças climáticas trarão choques climáticos, como chuva intensa e seca, e defende uma preparação da sociedade para estes cenários, em vez de presença de medo.
- Propõe aumentar a resiliência das estruturas públicas e privadas, com códigos de construção mais resistentes a precipitação extrema e ventos, além de transformar edifícios críticos em possíveis refúgios climático.
- Sugere planos locais de resposta rápida, sistemas de alerta precoce com instruções claras e maior literacia climática, bem como o mapeamento do risco para orientar investimentos e a recuperação pós‑catástrofe.
Portugal foi alvo de três tempestades consecutivas entre 22 e 28 de janeiro, Ingrid, Joseph e Kristin. O fenómeno pôs a nu a necessidade de adaptar infraestruturas e sistemas de alerta à escalada de eventos extremos.
O científico Pedro Matos Soares, da Faculdade de Ciências de Lisboa, afirma que as alterações climáticas vão trazer mais fenómenos extremos ao país. Não associa diretamente a cada caso ao aquecimento global, mas diz que o clima terá impactos diretos na economia, nas pessoas e nos ecossistemas.
Entre 22 e 28 de janeiro, as distritais Leiria, Coimbra e Santarém foram as mais afetadas, com danos generalizados e pelo menos dez mortes associadas a Kristin. O impacto incidiu principalmente em habitações e infraestruturas críticas.
Rumo a uma sociedade mais resiliente
Matos Soares defende uma mudança profunda, começando pelas infraestruturas. Novos códigos de construção devem prever precipitação extrema, ventos fortes e riscos de cheias, para estruturas críticas como redes elétricas, escolas e pontes.
Para além de obras, o especialista sugere refúgios climáticos: edifícios públicos ou privados que resistam a eventos extremos e possam acolher pessoas durante episódios graves. A reabilitação deve mirar a resiliência a 20 anos.
Planos de alerta e educação
O investigador frisa a importância de planos locais de resposta rápida, que hoje não existem. Não basta enviar mensagens; é preciso indicar ações e destinos seguros logo ao alerta.
Defende sistemas de alerta precoce mais eficazes, com instruções claras para proteger pessoas e bens. Lembra que parte da população não compreende o risco ou não tem acesso a informações úteis.
Mapeamento de risco e recuperação
A nível público, Portugal precisa mapear o risco climático para os próximos 10, 20 e 30 anos. Sem esse mapeamento, é difícil priorizar investimentos e elevar a resiliência de estruturas, alerta o especialista.
Aponta ainda a ausência de um plano de recuperação pós-catástrofe. O professor sugere uma coordenação entre governo, entidades locais e privados para evitar paralisação na resposta a emergências.
Educação e literacia climática
Segundo o perito, é essencial aumentar a literacia sobre fenómenos climáticos. As pessoas devem compreender o que fazer diante de uma onda de calor ou de uma cheia, não apenas receberem um SMS.
A solução passa por uma sociedade estruturada, com conhecimento disponível e acessível a todos, para minimizar danos em futuros eventos extremos.
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